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Resenha de Quinta: A Casa das Sete Mulheres (Letícia Wierzchowski)

Nas aulas de História, aprendemos que o que está nos livros é a narrativa dos vitoriosos. Aos perdedores das guerras e revoluções, quase nunca foi dada a oportunidade de colocar seu ponto de vista. O que comumente se esquece são daqueles que não se envolvem nos campos de batalha, mas cujas vidas são diretamente afetadas pelo trespassar das lanças e pelo choque entre as espadas. Ou, melhor dizendo, daquelas.

A Casa das Sete Mulheres é o romance que inspirou a minissérie homônima exibida pela Rede Globo em 2003 e, vamos ser honestos, é muito provável que esse tenha sido nosso primeiro contato com a obra. O livro acompanha sete mulheres da família do general Bento Gonçalves da Silva, líder da Revolução Farroupilha (1835-1845), que decidiu isolá-las em uma estância afastada das áreas em conflito, com o intuito de protegê-las. O propósito não se cumpre, já que a guerra não afeta apenas aqueles que a lutam nos campos de batalha, mas também os que ficam fora deles, a quem resta apenas a dura tarefa de esperar.

A espera – por notícias, pelo fim da guerra, pela gestação de uma criança – é um dos tópicos mais aprofundados pela narrativa poética de Letícia Wierzchowski. Talvez seja o respeito pelo vocabulário da época e pelas particularidades geográficas de uma região mais próxima dos vizinhos latinos do que do resto do Brasil que acaba se refletindo no linguajar: existe algo de musical, de etéreo e de estrangeiro na narração, o que encanta, mas também marca com firmeza a temporalidade.

Sim, sempre os homens se vão, para as suas guerras, para as suas lides, para conquistar novas terras e enterrar os mortos. As mulheres é que ficam, é que aguardam. Nove meses, uma vida inteira.

O livro é dividido entre a narrativa de um narrador observador onisciente e as memórias presentes nos cadernos de Manuela, diários mantidos pela sobrinha de Bento Gonçalves sobre o período em que esteve reclusa na Estância da Barra juntamente com suas irmãs, Rosário e Mariana, sua mãe, Maria Manuela, suas tias D. Ana e Caetana, e a prima Perpétua. A essas sete mulheres também frequentemente se soma D. Antônia, a tia que vive sozinha na Estância do Brejo, a uma hora de distância cavalgando.

A guerra que se esperava curta começou a se prolongar e a vida das sete mulheres confinadas no pampa começou a se transformar. Pela perspectiva feminina, vivemos a mais famosa revolta interna brasileira, e com elas dividimos a angústia, a solidão, a espera interminável. Sofremos com elas pelos amigos e familiares perdidos na guerra, assim como pelos amores sonhados e não vividos, por tudo que poderia ter sido e não foi. Vivemos as trincheiras a que tantas incontáveis mulheres sobreviveram, mas das quais nunca tivemos notícias. Esse é o grande mérito d’A Casa das Sete Mulheres: contar a velha e conhecida história de guerra por uma ótica improvável.

Outro aspecto que merece ser reconhecido é a construção das personagens. No início, enquanto ainda não estamos acostumados aos nomes, é difícil lembrar e diferenciar quem é quem. Entretanto, com o passar de algumas páginas, já reconhecemos as mulheres e moças por suas personalidades distintas, seus sonhos, seus medos, suas fortalezas e suas fraquezas. Apesar de umas terem mais destaque do que outras, cada uma tem sua trajetória individual caminhando de mãos dadas com a narrativa conjunta da revolução.

A Casa das Sete Mulheres é o primeiro livro da Trilogia Farroupilha, mas é, em si, um ciclo completo e fechado. Os livros seguintes (Um Farol no Pampa e Travessia) trabalham com personagens aos quais já fomos apresentados, mas não há ganchos no fim deste primeiro romance que tornem obrigatória a leitura dos próximos. Cabe ao leitor decidir voltar aos pampas gaúchos, à prosa poética de Letícia Wierzchowski e aos braços de mulheres fortes, mas esquecidas.

Toda quinta uma resenha!

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[x] A Casa das Sete Mulheres foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

 

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