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Resenha de Quinta: Nossas Horas Felizes (Gong Ji-Young)

De um lado da mesa, uma mulher rica, bonita e considerada bem sucedida que já tentou suicídio três vezes. Do outro, um jovem acorrentado por algemas físicas da penitenciária e emocionais de seu próprio sofrimento. Entre os dois, um corredor da morte, uma contagem regressiva e umas poucas horas felizes às quintas-feiras de visita.

Nossas Horas Felizes é o primeiro livro lançado no Brasil de Gong Ji-Young, uma das autoras mais populares da Coreia do Sul e que já conquistou mais de 20 milhões de leitores ao redor do mundo. Na obra conhecemos Yujeong, uma mulher da alta sociedade coreana que, indiferente a tudo e a todos e incapaz de se entender com a própria família, não consegue encontrar um sentido para sua vida. Depois de três tentativas frustradas de suicídio, acaba definhando entre o álcool e o desespero.

Enquanto sua família mais próxima não se esforça para entender o seu sofrimento, Yujeong encontra em sua tia freira, a irmã Mônica, alguém disposta a ajudá-la a voltar a sentir vontade de viver. Para isso, sugere à sobrinha que as duas façam semanalmente uma visita a um preso no corredor da morte. Assim, elas conhecem Yunsu, um homem que anseia deixar este mundo por acreditar que só assim conseguirá se redimir de seus pecados. Apesar da origem humilde, ele e Yujeong têm algo em comum: um triste passado de abusos físicos e psicológicos. Aos poucos, durante os encontros, os dois revelam um ao outro seus segredos mais obscuros e seus traumas do passado, criando uma conexão inesperada.

A narrativa é dividida pelos pontos de vista dos dois personagens principais, mas separada temporalmente.  Yujeong é o tempo presente, com toques de passado: inicialmente com uma frieza e uma certa futilidade, é difícil ter empatia pela personagem, mesmo com todo o seu relato de dor e sofrimento. Paulatinamente, à medida que se passam as visitas à prisão e a Yunsu, a barreira da mulher vai se diluindo, não somente em relação ao seu interlocutor, mas também entre leitor e personagem. É como se a rebeldia e o ódio de Yunsu por gente rica que teve tudo na vida nos forçasse a ver pela perspectiva de Yujeong e entender a compreensão de mundo dela. Já os relatos do rapaz são de um pretérito imperfeitíssimo, escrito nas Anotações Azuis, onde resgata sua trajetória trágica desde o princípio.

Nossas Horas Felizes consegue ser contraditório no mesmo aspecto: a originalidade. Enquanto ganha um ponto por retratar pessoas cujas vidas seguiram rumos completamente distintos, mas que dividem as mesmas angústias e as mesmas dores, ressaltando que a violência e o abuso tanto do corpo quanto da mente e do espírito estão presentes em todas as camadas sociais, o livro peca por estereotipar os protagonistas. “Pobre menina rica” que sempre teve tudo, mas se sente infeliz; “pobre menino pobre” que entrou para o crime não por escolha, mas por ser a única alternativa de sobrevivência nesse mundo cruel. Quantas vezes já não vimos esses dois personagens? A diferença é que em geral os encontramos em filmes/livros românticos de superação, estilo “o amor salva tudo e todos”. Aqui há perdão, mas antes disso há muita punição – inclusive injusta, indevida e desmedida.

Toda quinta uma resenha!

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[x] Nossas Horas Felizes foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

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