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Resenha de Quinta: Inventei Você? (Francesca Zappia)

Acordar, se vestir, conferir se o café da manhã preparado pela mãe tem microfones escondidos entre as panquecas, pedalar até a escola, verificar o perímetro para ter certeza que não há nazistas à espreita, assistir às aulas, checar os alimentos no refeitório para possíveis casos de envenenamento ou espionagem e, acima de tudo, fazer tudo isso sem desencadear uma crise nervosa ou deixar que os outros percebam. Essa é a dura rotina de Alex, uma adolescente esquizofrênica.

Alex está no último ano do ensino médio e, como toda garota comum de sua idade, sonha em ir para a faculdade. Contudo, diferente da maioria das garotas comuns de sua idade, ela trava uma batalha diária para diferenciar realidade de ilusão. Diagnosticada com esquizofrenia desde a infância, Alex tem consciência dos truques que sua mente é capaz de pregar em si mesma e até já desenvolveu alguns mecanismos para se certificar do que é real. Um deles é a sua inseparável câmera fotográfica: se aquela cobra de três metros aparecer na imagem revelada, então ela de fato existe.

Munida de uma atitude implacável e um humor que faz o leitor rir ao mesmo tempo em que se questiona se era certo rir daquilo, Alex declara guerra à sua doença em prol de um mínimo de sanidade capaz de levá-la a uma universidade e não a um hospital psiquiátrico no fim do ano e do ensino médio. Após um incidente conturbado em sua antiga escola particular, ela é transferida para o outro colégio da cidade, onde precisa estudar para conseguir boas notas, prestar serviço comunitário, conviver com alunos e professores de comportamentos questionáveis e ainda lidar com um grande choque: a materialidade da existência de um garoto que Alex acreditava ser fruto de sua imaginação.

Antes que possa perceber, Alex está fazendo amigos, indo a festas, se apaixonando e vivendo todos os ritos de passagem tipicamente adolescentes. E antes que nós também percebamos, estamos acompanhando todos esses momentos na ponta da cadeira, torcendo para que tudo dê certo e a mente da protagonista não crie situações indesejáveis, permitindo que ela experimente o que é “ser normal”. Enquanto ela descobre esse lado tão comum a nós, do lado de cá mergulhamos na natureza de sua esquizofrenia e conhecemos a estrutura familiar que apoia Alex, ao mesmo tempo em que também passa por suas dificuldades. Um pai amoroso, mas ausente em constantes viagens; uma mãe preocupada, mas que ainda luta para lidar com a doença da filha; uma irmã mais nova encantadora pela qual tememos que tenha o mesmo destino de Alex, ou até mesmo pior.

Francesca Zappia estreou no mercado editorial com um livro para jovens adultos capaz de conquistar também uma audiência mais velha. Inventei Você? é um romance dinâmico que desafia o leitor a acreditar ou desconfiar de sua narradora a todo instante, sem perder o ritmo ou a consistência. Quando pensamos em literatura juvenil/YA, é fácil e até preconceituoso pensar automaticamente em tramas superficiais que orbitam em torno de problemas que parecem tolos para quem já passou daquela fase. Este livro, por outro lado, combina de forma muito eficiente a adolescência de Alex e todas as suas descobertas com a carga até mesmo narrativa de sua doença mental, facilitando a empatia com a protagonista sem descarrilar para apelos sensacionalistas ou piegas.

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[x] Inventei Você? foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

Toda quinta uma resenha!

 

4 thoughts on “Resenha de Quinta: Inventei Você? (Francesca Zappia)”

  1. Eu escolhi esse livro pela capa e só depois fui ver a sinopse e vi que o assunto também me interessava bastante. Eu gostei da maneira com que a autora abordou a doença da Alex, embora tenha ficado na dúvida se houve algum embasamento científico na abordagem ou se foi algo mais fantasioso. Enfim, uma boa leitura mesmo!
    Beijos! ♡
    Colorindo Nuvens

    1. Sim, também me perguntei se ela estudou a doença ou ao menos entrevistou esquizofrênicos, ou se baseou apenas no nosso senso comum da doença. No fim das contas acabei relevando porque a narrativa é tão leve e divertida! Beijo :*

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