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Resenha de Quinta: O Senhor das Moscas (William Golding)

Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta. Os únicos sobreviventes são um grupo de meninos em idade escolar. Ao mesmo tempo em que descobrem os encantos desse refúgio tropical, eles procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas, aos poucos, esses garotos aparentemente inocentes transformam a ilha numa visceral disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade que mantinham como uma lembrança remota da vida em sociedade.

Publicado originalmente em 1954, O Senhor das Moscas é considerado um dos romances essenciais da literatura mundial, ainda que tenha vendido inicialmente cerca de três mil exemplares e logo tenha saído de catálogo. A demora para reconhecer o seu impacto é proporcional à relevância que adquiriu nas décadas seguintes, tendo sido adaptado duas vezes para o cinema, traduzido para 35 idiomas e constantemente referenciado em obras culturais de diversas mídias, principalmente na música.

O clássico moderno de William Golding já foi visto como uma alegoria, uma parábola, um tratado político e mesmo uma visão do apocalipse. Ao narrar a história desse grupo de meninos perdidos numa ilha paradisíaca que aos poucos se deixam levar pela barbárie, o autor propõe uma reflexão sobre temas opostos à visão que temos da infância: a natureza intrínseca (e humana) do mal, a tênue linha que separa o poder da violência, a racionalidade em cheque quando o prêmio em jogo é a sobrevivência.

Quando o avião cai nessa paradisíaca e tropical ilha, um acaso do destino ou uma escolha certeira autoral elimina o piloto, o único adulto que poderia se responsabilizar pelos garotos que transportava. Completamente sozinhos, esse grupo de garotos de no máximo doze anos, cujo número nunca é precisado, mas é de se imaginar que sejam entre 15 e 20, precisa se organizar para sobreviver e torcer para serem resgatados. Nesse contexto inicial em que ainda são meninos de um colégio interno subitamente imersos em uma situação extrema, eles conseguem entrar em alguns acordos.

Um desses entendimentos é sobre Ralph, escolhido como líder em uma votação democrática. Além de delegar responsabilidades entre os meninos em relação à construção de abrigos, ao cuidado com os mais novos e à busca por comida, Ralph estabelece como um de seus principais esforços a manutenção de uma fogueira sempre acesa no ponto mais alto da ilha para que a luz ou a fumaça seja capaz de alertar navios da presença humana no local. Parece lógico que essa deveria ser uma das prioridades máximas de todos, não é verdade?

A princípio, sim. Mas o passar dos dias e o isolamento em pessoas que mal tiveram tempo de perceber, que dirá entender, as regras dos contratos que regem a vida em sociedade fazem os meninos mergulharem cada vez mais fundo em estados de instinto selvagem em que racionalidade não é a ordem da vez. A percepção do poder e o alcance que ele tem sobre os outros, unida ao medo do desconhecido e às necessidades primárias de sobrevivência transformam esse cenário idílico em um terreno traiçoeiro de confrontos a literalmente paus e pedras.

Terminar essa leitura é preencher a cabeça com dúvidas que lembram um pouco as aulas de história e filosofia. Será mesmo que o homem é o lobo do homem? O contrato social que estabelecemos em comunidade é a única barreira que nos separa da nossa programação natural instintiva? Sem um conjunto de regras para guiar nosso comportamento, estamos fadados a um estado animalesco? A maldade é uma escuridão intrínseca à essência humana que devemos combater diariamente ou somos tábulas rasas cujo texto é escrito pelas experiências compartilhadas?

Apesar de toda a sua relevância literária, O Senhor das Moscas não me ganhou por si só. Após análises mais frias, é possível reconhecer as múltiplas camadas de interpretação da história da ilha – há quem a compare, em termos de alegoria, ao clássico orwelliano Revolução dos Bichos -, mas o desenrolar da narrativa foi mais do que uma pedra em meu caminho. Talvez tenham sido minhas expectativas elevadas, porque imaginei que o protagonismo infantil aliado à selvageria consequente do isolamento fosse impulsionar o ritmo e transformar a narração em algo frenético, desenfreado, rápido. O que encontramos, por outro lado, são várias – várias – páginas em que absolutamente nada acontece. E para um livro com menos de 300 páginas isso não conta a favor. Aliás, são basicamente cem páginas de um arrastar vagaroso. Era de se esperar que essas crianças fossem tornar as coisas mais dinâmicas e mais cedo do que de fato o fazem.

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Toda quinta uma resenha!

10 thoughts on “Resenha de Quinta: O Senhor das Moscas (William Golding)”

  1. Eu já tinha visto uma resenha desse livro que foi bem positiva. E agora vejo a sua que me chamou bastante atenção quanto ao nada acontecer por várias páginas, e isso é algo que realmente baixa bastante o estímulo durante a leitura. Gosto bastante quando as resenhas também mostram algo de negativo!

    Beijinhos!
    Luar de Livros

  2. Essa coisa de manter a fogueira sempre acessa me lembra muito o clássico Lagoa Azul haha. A respeito da história, me lembrou muito um Mangá que li faz muito tempo. Não lembro o nome, mas a história era quase igual. Fiquei com muita vontade de ler livro, apesar de parecer ser meio lento

  3. A proposta da história é tão marcante, que desde criança sei desse livro. Certa vez estava passando uma adaptação cinematográfica. Nunca assisti, mas lembro que a história de jovens isolados e o caos que viria depois com eles sozinhos ficou para sempre em minha mente.

    Foi até uma boa ler sua resenha porque quando eu finalmente ler esse livro, vou fazê-lo preparado para a “arrastação”.

    Obrigado pela dica!

  4. Já ouvi falar muito desse livro pelo peso histórico dele, mas nunca o li, já li “A Revolução dos Bichos” que tu também citou, e já fiquei pensativa com o assunto, imagino quando ler este, que apesar de conhecer nunca soube antes do que se tratava a narrativa. Normalmente esse tipo de livro costuma ter uma leitura mas pesada mesmo, mas sempre vale a pena né?

    Bites!

  5. Já tinha ouvido falar desse livro antes, na época até que fiquei com vontade de ler ele. Parece ser um livro bem interessante mas pensando aqui, não acho que eu vá ler ele tão cedo…
    Gostei de saber que a leitura pode acabar sendo cansativa. É bem chato quando criamos expectativas e o livro nos decepciona, por isso adoro resenhas um pouco negativas haha

  6. Acebei de ler um livro que cita O Senhor das Moscas, apesar de ser um clássico tão falando a história não me atrai. Quem sabe num futuro próximo eu de uma chance, mas lendo sua resenha é não é um tipo de história que eu leria por agora.

  7. Eu adoro esse tipo de reflexão sobre a natureza humana e apesar de ter ouvido menções a esse livro em diversos locais, não tinha procurado saber da sinopse nem nada disso. Realmente o último comentário que vi sobre ele foi sobre a lentidão e como estava difícil de terminar porque não saía do lugar. Por ser um livro pequeno, acho que darei a chance mesmo assim.

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