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Resenha de Quinta: A Hipótese Humana (Alberto Mussa)

Rio de Janeiro, 1854. Após um sexo temperado pela urgência do proibido, Domitila é assassinada na chácara de seu pai, um poderoso coronel e senhor de escravos. A investigação fica a cargo do detetive Tito Gualberto, membro do serviço secreto da polícia da Corte e hábil capoeirista, primo e amante da vítima, talvez a última pessoa a vê-la viva antes do próprio criminoso.

A Hipótese Humana é o quarto romance do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, uma série de romances policiais de Alberto Mussa, um para cada século da história carioca. Apesar da cronologia, o conjunto – também composto pelos premiados O trono da rainha Jinga, A primeira história do mundo e O senhor do lado esquerdo – pode ser lido fora de ordem e como obras individuais. Neste livro em especial, o autor confunde o leitor quanto ao que é ficção e o que foi realidade: apesar de se tratar da investigação de um crime, há um tom de crônica das ruas que traz familiaridade, principalmente se você já tiver visitado o Rio de Janeiro.

Para Alberto Mussa, a cidade é mais do que um lugar para ambientar suas histórias: é um personagem. Neste livro, o Rio de Janeiro é detalhadamente descrito – mas nada muito Tolkien, calma – ao ponto de criar vida e suas ruas e principalmente seus becos terem importância crucial para o desenrolar da trama. Fica nítida a profundidade da pesquisa histórica empenhada pelo autor: através de jornais, documentos de cartório e até mesmo registros policiais da época, Mussa traçou um desenho territorial que vai além das divisões entre bairros no século XIX, mas alcança os limites entre domínios de grupos de capoeiras rivais e a origem de conflitos sangrentos e fatais comuns para o período.

Através de um narrador onisciente até demais, Mussa costura uma trama que envolve história, misticismo, suspense e especulação. O protagonista e investigador Tito Gualberto é um mestiço integrante de um determinado grupo de capoeiristas, o que incita a rivalidade de outros clãs, dando também toques de ação, aventura e perigo às suas andanças pelas ruas e becos do Rio de Janeiro à procura do assassino da prima e amante. A capoeira é um dos elementos de herança africana mais fortes em A Hipótese Humana, sendo explorada na narrativa não só como propulsora dos eventos, mas também fornece um clima de ambientação e uma ideia de mini-sociedade entre seus membros.

O outro ponto cultural explorado é a religiosidade africana. As rixas entre as diferentes etnias forçadamente conglomeradas pelos senhores de escravos em senzalas compartilhadas se desvela em suas disputas por poder mediadas pela religião. A leitura traz momentos verdadeiramente sinistros sob essa cortina mística e desconhecida, o que amplia o suspense da investigação criminal, mas também empodera os negros como personagens. É incomum ver escravos retratados, pelo menos por um aspecto, como figuras dominantes, engenhosas e manipuladoras inclusive sobre seus soberanos.

Ainda falando de religião, o livro também destaca, com o ar de medo e mistério propícios da época e do tema, a chegada do espiritismo no Brasil. Enquanto segue suas pistas, Tito vai parar em uma casa onde um dos suspeitos assiste a uma sessão de incorporação através de médiuns em que a própria Domitila afirma estar presente.

A Hipótese Humana foi inspirada em um causo trágico e real contado pela mãe de Alberto Mussa. Sendo assim, não seria de surpreender a verossimilhança dos eventos. Contudo, a inserção dos elementos místicos poderia ter desandado a narrativa para um tom esotérico, sensacionalista e até mesmo cafona, o que não foi o caso. As diversas crenças envolvidas na resolução da morte de Domitila conspiram para uma leitura envolvente, fluida e permeada pela alma encantadora das ruas, como já diria João do Rio.

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[x] A Hipótese Humana foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

Toda quinta uma resenha!

6 thoughts on “Resenha de Quinta: A Hipótese Humana (Alberto Mussa)”

  1. Parece um livro muito interessante. Adoro esse cuidado com os detalhes de descrição, geralmente é uma das minhas partes favoritas na hora da escrivinhança <3 E ser passado no RJ me fez lembrar de Memórias Póstumas de um Sargento de Milícias, que eu curti bem quando li anos atrás… Tudo que tem esse Q de história sempre me interessa. Gostei da indicação 😀

    http://www.armaduranerd.com.br

  2. Muito interessante esse livro, é muito bom dar apoio e espaço para autores nacionais, ainda mais quando eles se mostram tão bons em fcção quando os gringos e ainda mesclam com a cultura e história do nossa própria terra.

    Bites!

  3. Nossa, que interessante… Confesso que é um livro que pela capa e talvez até mesmo pela sinopse eu não pegaria para ler (preconceito bobo eu sei), mas a sua resenha aguçou uma curiosidade em mim, de ver como tudo isso foi montado e de descobrir quem matou essa menina! Parabéns mesmo pela resenha, atingiu o ponto. Vou adicionar o livro no Quero Ler do Skoob.

  4. Gente quantos temas abordados de uma vez só! Eu não conhecia a obra,mas adoro romances policiais e fiquei aqui com vontade de desvendar esse mistério todo,
    DICA SUPER ANOTADA!

  5. Eu tive oportunidade de solicitar essa obra, mas a sinopse oficial dele não conseguiu nem de longe me encantar tanto quanto a sua resenha! Me arrependi muito de não ter dado uma chance para o autor e, definitivamente, vou procurar adquirir o livro assim que possível Ótima resenha!
    Literalize-se

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