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Resenha de Quinta: O Muro (William Sutcliffe)

A capa promete uma história “que vai emocionar os leitores de A menina que roubava livros, O menino do pijama listrado e O diário de Anne Frank“. O que esses livros têm em comum? O Holocausto da Segunda Guerra Mundial e o genocídio de seis milhões de judeus. O que O Muro traz de diferente a esse tema tão recorrente na literatura? Uma continuação bem menos maniqueísta do conflito iniciado na década de 40, com a criação do estado de Israel.

O Muro é uma fábula política e ideológica que evoca a realidade da Cisjordânia sob o ponto de vista de uma criança que descobre, da forma mais difícil, que toda história tem dois lados. Joshua tem 13 anos e mora com a mãe e o padrasto em Amarias, um lugar isolado no topo da montanha, onde tudo resplandece de tão novo. Na fronteira da cidade, há uma barreira bem alta, guardada por soldados fortemente armados e que só pode ser cruzada através de um posto de controle. A mensagem é bem clara: ninguém entra e ninguém sai sem permissão.

Apesar disso, não há questionamento quanto à legitimidade ou necessidade da muralha. Pelo contrário: toda a população de Amarias aprova a sua existência já que, alega-se, há um território violento do outro lado, onde vivem pessoas perigosas que desejam apenas o mal e a destruição de seus vizinhos. Para eles, O Muro é a única coisa capaz de manter seu povo em segurança.

Um dia, enquanto voltava da escola e brincava com um amigo, a bola de Joshua acidentalmente cai do outro lado do Muro. Ignorando tudo o que sempre ouviu, o garoto vai atrás do brinquedo e acaba explorando o terreno desconhecido e, aparentemente, abandonado às pressas. Nesse território desconhecido, ele descobre um túnel que o leva ao lado proibido do Muro, onde cai nas mãos de uma gangue violenta. A bondade de uma menina salva sua vida, porém essa mesma generosidade desencadeia um ato de extrema crueldade e coloca Joshua em dívida com ela.

O Muro é um livro voltado para jovens adultos, mas que não atinge somente esse público; o tom de fábula moralizante é claro, mas não chega a ser cansativo. A luta de Joshua para manter sua promessa e fazer uma boa ação que possa recompensar os riscos que causou à família do outro lado do Muro é uma evolução do personagem ao longo do livro, passando da criança que se tornou adolescente ao jovem que se torna adulto em questão de poucos e intensos meses. O que é isso senão a árdua tarefa de crescer que compete a todos nós?

Embora a alegoria geral da trama seja muito específica ao contexto Israel-Palestina, é possível traçar paralelos a outros tipos de conflitos sociais mais próximos a nós, ocidentais, sem precisarmos ir muito longe para isso. Pense nos Estados Unidos e nas cercas (possível muro?) que os separam do México. Pense no muro que escondeu o Conjunto de Favelas da Maré, localizada às margens da Linha Vermelha no Rio de Janeiro e bem no caminho para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão. Tudo se resume à separação física de povos nascida do medo de um pelo outro. A medida traz uma falsa sensação de segurança a um dos lados enquanto o verdadeiro problema é camuflado por tijolos, argamassa e soldados armados.

O Muro ousou cutucar, assim como outros antes dele, utilizando a ótica da inocência infantil. Contudo, a polêmica e também a novidade dessa provocação é a perspectiva: por mais que Joshua seja judeu, as críticas são feitas para o lado dele. Com toda a efervescência de produtos culturais ambientados na Segunda Guerra Mundial, é até rotineiro ver os judeus como as vítimas do Holocausto; pouco se escreve sobre o que aconteceu depois, com a criação de Israel, a divisão do território da Palestina e um campo de guerra e destruição intermitente desde 1948.

A proposta de fábula moderna torna alguns aspectos do livro mais caricatos e até maniqueístas, como a construção do personagem do padrasto, e há algumas falhas de roteiro que precisam ser ignoradas para dar continuidade à história. Por exemplo: se você tem um celular só seu – portanto tem privacidade – com acesso ao Google – portanto não vive em uma ditadura que controla a Internet – como nunca pesquisou sobre a situação no mínimo bizarra da sua própria cidade cercada por um muro? Para o bem da leitura, vamos assumir que é uma reprodução do mito da caverna e que só depois que conheceu o mundo exterior é que Joshua percebeu as sombras onde vivia.

Ódio, preconceito, injustiça e medo: nunca pensei que fosse encontrar sentimentos tão densos e maduros em um livro que se coloca para adolescentes. A abordagem deles, entretanto, é limitada graças à narração em primeira pessoa e às opiniões do protagonista; mas, afinal de contas, não são assim todos os adolescentes? Cheios de convicções até que alguém o tire da zona de conforto e diga “o mundo não é bem assim, querido”? A tempestade emocional que vive em Joshua é compreensível, principalmente para quem atravessou o Muro, quebrou a cara e voltou.

Como toda fábula, O Muro nos leva a habitar outros lugares e outros seres para melhor compreendermos situações reais. A alegoria da ficção nos desconecta por um momento para depois nos ligar na maior potência de voltagem. Resta torcer para que quem ouse atravessar túneis e cruzar muros para alcançar o outro não retorne ao ponto de origem como se nada tivesse acontecido.

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[x] O Muro foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

Toda quinta uma resenha!

 

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