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Resenha de Quinta: O Conto da Aia (Margaret Atwood)

Simone de Beauvoir um dia disse que “basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos políticos das mulheres sejam questionados”. A distopia futurista O Conto da Aia, escrita pela canadense Margaret Atwood ainda nos anos 70 e publicada em 1985, reverbera esse pensamento catastrófico, mas real, a cada sentença.

A trama se passa na República de Gilead, como ficaram conhecidos os extintos Estados Unidos da América após um golpe que instaurou um regime militar ditatorial e teocrático em que a sociedade passou a ser dividida por castas rígidas e onde os direitos civis, principalmente os femininos, foram expurgados. Não existem mais universidades. Não se pode mais escrever ou ler, nem mesmo a Bíblia. Não há mais garantias de defesa, até porque os advogados foram perseguidos e mortos como subversivos.

Nessa nova configuração, as mulheres são separadas em classes. As Esposas dos Comandantes ocupam a posição mais elevada; integram famílias da elite por seus maridos serem funcionários públicos no controle do novo governo. Por isso, têm regalias e autoridade em relação às outras mulheres. As Marthas são trabalhadoras domésticas, como faxineiras e cozinheiras, em geral mais velhas e fora da idade fértil, cujo destino é servir as famílias que as abrigam. Já as Aias ocupam uma posição considerada, ao mesmo tempo, essencial e degradante.

O contexto pré-Gilead estava marcado não somente por crises políticas, como o assassinato do presidente americano, mas também sociais e ambientais. Acidentes químicos e nucleares causadores de infertilidade somaram-se ao controle da natalidade promovido pelo acesso a métodos anticoncepcionais, resultando em uma queda preocupante no número de nascimentos. Graças a isso e ao pensamento religioso extremista baseado em preceitos do Antigo Testamento, o novo regime instaurou a classe das Aias, mulheres férteis em idade reprodutiva cujo único propósito social é a gerar crianças. A procriação é instituída e regulamentada, de modo que as Aias são enviadas às casas dos Comandantes para prestar seu serviço por até dois anos. Caso não consiga engravidar ou tenha algum problema com a família, em geral com a Esposa por motivos óbvios, pode ser realocada para outro posto ou, na pior das hipóteses, enviada às Colônias e se tornar uma Não-Mulher, condenada a viver no exílio em situações extremas e desejando a todo instante estar morta.

Offred (literalmente “of Fred”, propriedade de Fred) é uma Aia enviada à casa de um Comandante para seu serviço. É por sua narrativa, às vezes um pouco confusa, que esse contexto gradualmente se revela. Indo e voltando ao seu passado em lembranças dolorosas de um tempo que não volta mais, acompanhamos seus dilemas internos atravessados pelo desconhecimento do destino à sua família (o companheiro, a mãe revolucionária e feminista, a filha pequena), pelo temor pela própria vida, constantemente ameaçada caso não cumpra sua “razão de ser”, e pelo desprezo misturado ao asco caso efetivamente consiga.

As Aias são vistas como prostitutas pelas outras mulheres e, por isso, hostilizadas, ainda que devam ser protegidas para que possam gerar filhos. Pelos Comandantes, são encaradas como objetos, meios para um fim. Não há sensualidade ou atração no ato sexual, muito menos qualquer tipo de amor: o ritual conhecido como Cerimônia é a execução mortificante de um contrato bizarro. Por si mesmas, as Aias não tem sequer essa liberdade de pensamento para ter uma opinião sobre elas próprias. A repressão é mais forte sobre elas do que sobre qualquer outra: são simultaneamente preciosas e descartáveis, abençoadas e amaldiçoadas pela fertilidade.

O mais assustador da história criada por Margaret Atwood é pensar que, embora Gilead seja fictícia, seus preceitos são reais. A autora argumenta que todos os cenários oferecidos em O Conto da Aia realmente ocorreram na vida real; em uma entrevista, ela afirmou que não colocou em sua obra “nada que nós já não fizemos, já não estamos fazendo, estamos tentando seriamente fazer, juntamente com as tendências que já estão em andamento… Então todas essas coisas são reais, e, portanto, a quantidade de pura invenção está perto de nada”.

É por vermos O Conto da Aia dobrando a esquina da nossa realidade que a obra se mantém tão relevante. Reverberando as manchetes de jornais, ela mostra como direitos conquistados através de sangue, suor e luta ainda são frágeis nas mãos daqueles que detém o poder, principalmente quando este é alcançado pelo uso da força. Dizem que a corrente arrebenta no elo mais frágil e, socialmente falando, por maior que tenha sido a organização e o empoderamento no último século, esse elo permanece sendo a mulher. Não por falta de capacidade, gerenciamento, inteligência, disposição ou coragem, mas pela manutenção de estruturas alocadas em diversos níveis que se esforçam para manter as rédeas. É como a coleira retrátil de um cachorro: você tem dois metros para caminhar à frente, mas ao pressionar de um botão, a corda trava e retrocede, arrastando tudo por terra de volta a onde começou.

Mais do que propor uma discussão sobre a redução da mulher a um papel reprodutivo, o livro questiona nossas noções de família, o papel da religião nos caminhos que traçamos como indivíduos e como sociedade, os múltiplos significados do sexo, além do controle sobre o próprio corpo (será mesmo “meu corpo, minhas regras”?). Como um cutucão doloroso na costela, O Conto da Aia cumpre seu papel distópico de incomodar e alertar para os perigos de quando a ficção se confunde com a realidade.

Toda quinta uma resenha!

 

19 thoughts on “Resenha de Quinta: O Conto da Aia (Margaret Atwood)”

  1. Já tinha ouvido falar sobre esse livro, mas nenhuma outra opinião havia despertado em mim a curiosidade que a sua resenha me trouxe. Histórias distópicas que muitas vezes trazem o pior da humanidade e, possivelmente, o que talvez seja o nosso futuro, são essenciais para serem lidas.
    Você chegou a assistir a série baseada nesse livro? Se sim, o que está achando? Tô querendo me aventurar na adaptação também!

    http://sonhandoatravesdepalavras.blogspot.com.br

  2. Adorei sua resenha! Ainda não conhecia esse livro, mas me interessei bastante. Já conhecia a frase de Simone de Beauvoir e tenho a impressão de que O Conto de Aia trata exatamente disso. Gosto também da ideia de ser uma distopia, mas que a autora tenha esclarecido que inventou quase nada para escrever o livro.
    O Conto de Aia já está na minha lista de próximas leituras!
    Beijos,
    Ju!

    http://naosepreocupecomisso.blogspot.com.br/

  3. Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas estou chocada, pq igual a autora falou estamos vivendo ou vivemos esse retrocesso em vários locais pelo mundo, sendo sincera sua resenha me deixou bastante chocada e angustiada não só pela perda de direitos das mulheres, mas pela falta de empatia das que tiveram enter “” algum tipo regalaria acharem que por isso podem se sentir melhor do que as que não.

    http://www.coisasdemineira.com

  4. Babe, que forte e atual o enredo desse livro. Eu confesso que o gênero não me atrai muito, mas eu tenho amigas que precisam ler a sua resenha e vou indicar o seu post para elas <3
    Ótimo post, parabéns pela crítica detalhada.

    Beijos da Supimpa Girl

  5. Fiquei curiosíssima com essa distopia, com a crítica que ela carrega e as reflexões sobre os papéis diversos da mulher. Já recebi muitos elogios dessa autora, mas ainda não li nada da mesma. Agora tenho interesse nesse conto, vou procurá-lo 🙂

  6. Eu tinha feito todo um comentário elaborado aqui, mas deu ruim e não salvou. 🙁 Enfim: que baita resenha! Não sabia que o livro tem esse teor tão político, feminista e importante. Preciso pra já!

    1. Tem um filme da década de 90 e o Hulu tá transmitindo uma série agora. A temporada começou no fim de abril e tem Elizabeth Moss e Alexis Bledel no elenco.

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