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6 mães inesquecíveis da literatura

Assim como na vida real, a literatura também transborda de mães dos mais distintos espectros. Das amorosas às obsessivas, das protetoras às desequilibradas, das que abraçaram a maternidade como bênção às que a ojerizam como maldição. A lista de hoje traz personagens cuja primeira caracterização é ser mãe de alguém, mas provam em suas narrativas serem muito mais.  

Molly Weasley – Harry Potter (J. K. Rowling)

À primeira vista, Molly Weasley pode ser considerada um estereótipo. Dona de casa e mãe de sete filhos, tem um toque de cômico pela forma como gerencia sua família e seus escassos recursos financeiros. Amorosa e superprotetora, a Sra. Weasley às vezes é vista com embaraço e vergonha pelos próprios filhos; enquanto isso, aos olhos do protagonista, ela é tudo que um órfão criado à base do desprezo poderia sonhar. Molly é a representação da vida familiar que Harry poderia ter tido em um universo paralelo Voldemort-free. É muito gratificante perceber que a construção da personagem evolui à medida que a trama se torna mais sombria, ainda que não haja tanto espaço assim para aprofundar: mais do que uma mãezona preocupada com uniformes ou o jantar da noite, Molly se mostra uma mulher destemida e forte, com um passado marcado por uma grande tragédia, mas que ainda assim mantém a bondade no coração e a vontade de proteger os mais fracos. A Sra. Weasley é uma leoa de pêlo vermelho: ai daquele que se atrever a mexer com uma de suas crias, biológicas ou adotivas!

Catelyn Stark – As Crônicas de Gelo e Fogo (George R. R. Martin)

Em universo em que a mulher está relegada a um papel terciário, encarada como moeda de troca em casamentos por interesse, reprodutora ou concubina, George R. R. Martin conseguiu desenvolver não apenas uma, mas várias personagens femininas complexas e instigantes. Cersei, Daenerys, Sansa, Arya, Arianne, Asha… mas Catelyn Stark, em termos de maternidade, é uma joia multifacetada. Ao mesmo tempo em que se mostra uma conselheira sensata e uma companheira valorosa para o marido, Ned Stark, é profundamente amargurada pela traição que rendeu o bastardo Jon Snow. Nobre por nascimento e por casamento, Catelyn criou os filhos para liderar no Norte, mas não consegue lidar com a aversão da filha mais nova pela obrigação de ser uma lady. É profundamente abalada pelo acidente que quase matou um dos filhos mais novos, mas parte na comitiva do mais velho por acreditar ser seu dever. À sua maneira e com suas próprias armas, Catelyn também joga o jogo dos tronos.

 

Eva Khatchadourian – Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lionel Shriver)

Eva Khatchadourian é a definição de ser mãe é padecer no inferno. A narradora do perturbador Precisamos Falar Sobre o Kevin (confira a resenha) é um desafio doloroso aos mitos da maternidade feliz, plena e realizadora. Antes uma mulher independente e bem sucedida, Eva se vê encurralada em um pesadelo quando se torna mãe de Kevin, um jovem altamente manipulador com uma assustadora tendência violenta. A complexa personagem de Lionel Shriver não verbaliza, mas a pergunta ao leitor é clara a todo instante: será mesmo que toda mulher nasceu para ser mãe?

 

Mrs. Bennet – Orgulho e Preconceito (Jane Austen)

Mrs. Bennet é o tipo de mãe que acredita fazer o melhor para a prole, mas na verdade só as prejudica. Fofoqueira, orgulhosa, exagerada e mandona, com tendência a ataques de nervos, ela toma as rédeas da família para arquitetar casamentos vantajosos que tragam segurança financeira a suas cinco filhas, impedidas pela Inglaterra vitoriana de ter uma vida independente de um homem. A intenção tem seu mérito e provém de uma preocupação materna natural; o problema – e parte da comicidade de Orgulho e Preconceito – mora na execução das estratégias casamenteiras.

Margaret White – Carrie (Stephen King)

Uma das mães mais memoráveis pelo absoluto terror que inspira, Margaret White é uma fanática religiosa à beira do abismo da loucura. Vigilante do pecado, encontra-o nas mais inocentes atitudes, sendo sua principal vítima a própria filha, a frágil Carrie, castigada frequentemente com horas de prisão – ou penitência – dentro de um armário. O pudor obsessivo e violento de Margaret é tamanho ao ponto de acreditar que somente mulheres perdidas e impuras desenvolvem seios e que a menstruação é uma “maldição de sangue”. O relacionamento abusivo entre mãe e filha é um dos mais emblemáticos e aterrorizantes da literatura – principalmente porque, ao contrário da telecinese de Carrie, pode ser muito real.

Úrsula Iguarán – Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez)

Matriarca da família Buendía, Úrsula é uma mulher que batalha por sua família sem medir esforços. Determinada e de personalidade forte, é a ela que todos recorrem sempre que precisam de ajuda; busca a todo momento o melhor para sua família e por isso sofre constantemente ao ser a “voz da razão de uma família de loucos”, como ela mesma afirma. Parece ter em seu destino a luta pelos homens da família. Presente em todas as fases do épico livro, nunca perde a importância nem a hierarquia, mesmo na idade avançada.

A Mãe – Quarto (Emma Donoghue)

Para Jack, um esperto garotinho de cinco anos que nos conta a própria história, ela é apenas a Mãe. Para nós leitores, ela é uma mulher que foi sequestrada ainda na adolescência e, enquanto lemos, já é mãe de uma criança fruto do abuso sexual que sofre todos os dias em seu cativeiro. O cenário é escuro e cheio de horrores, mas o relacionamento entre mãe e filho que nasceu de toda essa adversidade é belo, puro e genuíno. Com determinação, criatividade e um imenso amor, a Mãe criou dentro do Quarto uma vida para Jack, uma vida que ele não pode comparar com mais nada porque aquilo é tudo que ele conhece. Ela encontrou na existência de Jack não só um motivo para continuar vivendo, mas para sonhar e arquitetar uma fuga. Leia a resenha completa.

4 thoughts on “6 mães inesquecíveis da literatura”

  1. Post muito bom! Das que estão aí conheço a Margaret, Catelyn e Molly. Ainda não li (nem assisti) Orgulho e Preconceito e nem Precisamos Falar Sobre Kevin, mas gostaria muito. De Guerra dos Tronos eu gosto muito do lado materno da leoa, a Cersei faz muita coisa errada, mas ela tudo que ela faz é visando os bens dos filhos.

    Bites!

    1. Obrigada, Tary! Olha, preciso confessar que a escolha mais difícil dessa lista foi entre Cersei, que é dona e proprietária do meu coração, e Catelyn. Apesar de muito distintas uma da outra em alguns pontos, ambas são exemplos de construção de mães e de como a maternidade pode impulsionar o desenvolvimento das personagens, tornando-as complexas e reais. As duas praticamente começaram duas guerras pra proteger as respectivas crias! Isso é sensacional!

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