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Resenha de Quinta: Como Star Wars Conquistou o Universo (Chris Taylor)

Olhando para trás em nossas próprias histórias, coletivas ou individuais, há momentos em que podemos apontar o dedo e dizer: “foi aí que tudo mudou”. Os estopins das transformações podem ser mosquitos ou elefantes, como o assassinato de um príncipe ou uma frase entreouvida. No caso da cultura pop como conhecemos hoje, esse ponto foi um acidente de carro em uma cidade modesta do interior da Califórnia em 1962 que salvou a vida de George Lucas e deu à luz e à Força o fenômeno Star Wars.

Como Star Wars Conquistou o Universo é uma obra extensa e detalhada que pode ser definida como uma biografia da franquia bilionária e transmidiática que revolucionou a cultura pop. Ao longo de quase 600 páginas de um trabalho árduo e primoroso de apuração jornalística, o editor inglês Chris Taylor nos guia, como um hábil narrador, pelo passado, presente e indicações de futuro de Star Wars.

Apesar da grandeza semântica imbuída no título, Como Star Wars Conquistou o Universo não é um livro somente para fãs da saga e vai além dos limites da galáxia muito, muito distante. Entre um filme e outro, aborda produção cinematográfica em geral, administração de empresas, gerenciamento e posicionamento de marca e até determinação pessoal. Porém, para as legiões de apaixonados, a leitura pode ser ainda mais prazerosa; Chris Taylor revela segredos que até o fã mais radical desconhecia, derruba e confirma antigos mitos e rumores sobre a produção e dá voz a muita gente relevante na criação de Star Wars como um todo, de aliados a desafetos de George Lucas.

A introdução nos leva a Window Rock, no Arizona, na noite de 3 de julho de 2013, quando pela primeira vez um filme dublado em um idioma ameríndio, o navajo, foi exibido. O escolhido para esse momento histórico foi um filme que também cravou seu nome na história, ainda que à época do lançamento não fosse assim batizado: Star Wars Episódio IV – Uma Nova Esperança. Para Chris Taylor, a experiência tinha um objetivo particular: encontrar alguém totalmente inocente em termos de Star Wars.

Pode parecer piada, mas a meta é um grande desafio. Como o próprio autor explica, a cultura moderna – principalmente a norte-americana – é saturada por Star Wars, com referências surpreendendo como um pop-up inesperado a todo instante. “Uma familiaridade com Star Wars (…) é uma condição sine qua non de nossa cultura global dominada pela mídia”, pondera o jornalista. O argumento sustentado é que, mesmo que você nunca tenha efetivamente assistido a um ou mais filmes da série, é praticamente impossível que você tenha conseguido se desviar do conhecimento inerente à saga, como a existência da Força, a gramática invertida de Yoda, o penteado da princesa Leia ou quem é o verdadeiro pai de Luke Skywalker.

Essa reflexão inicial sobre a capilaridade de Star Wars na cultura pop atual dá o tom para o desenrolar da história que se inicia no primeiro dos vinte e sete capítulos seguintes. Chris Taylor consegue costurar uma narrativa inchada de informação, fruto de uma pesquisa notoriamente extensa que não se contentou com uma única versão dos fatos, principalmente se for a que partiu de George Lucas, transformando o nascimento e o desenvolvimento de Star Wars como franquia, marca e símbolo em um verdadeiro épico.

O livro trata inicialmente dos produtos e do contexto que inspiraram George Lucas, também conhecido e mencionado como o Criador, a fermentar e borbulhar de ideias. Séries televisivas como Flash Gordon e Buck Rogers e um racha antigo entre os monstros da literatura Júlio Verne e H. G. Wells quanto às diferenças entre ficção científica e fantasia espacial arejaram o terreno onde foram plantadas as sementes de Star Wars. Em seguida, parte para nos apresentar os prólogos de George Lucas antes que o Criador fosse tão conhecido quanto sua criatura. Conhecemos um pouco de Modesto, sua terra natal na Califórnia onde aprendeu a amar cinema e velocidade, e onde também quase perdeu a vida em um acidente de carro.

A batida foi fatal para o George imprudente fez renascer um jovem extremamente dedicado e persistente, perseguido por uma ideia de aventura espacial. Um dos grandes méritos de Como Star Wars Conquistou o Universo é conseguir contar também a história de Lucas, mas desmistificando a figura do Criador e do processo de criação, que foi sim bastante colaborativo. Taylor resgata e credita pessoas que não receberam nem o reconhecimento nem a gratidão que deveriam pela contribuição à saga mais famosa de todos os tempos, algumas delas descartadas puramente por desavenças com o controlador George Lucas, como sua ex-esposa, Marcia Lucas. O jornalista também constrói um cenário parecido com um quebra-cabeças em que cada peça representa um colaborador essencial, como Charles Lippincott, responsável pelo marketing do filme e que estabeleceu  as diretrizes da publicidade moderna para esse tipo de produto ou Alan Laddie, produtor que convenceu a Fox a bancar Uma Nova Esperança.

Para além de Star Wars, o livro também trata um pouco do contexto cinematográfico da época e como ele traçava paralelos ao cenário principalmente político e social. A era Nixon, a Guerra no Vietnã, as primeiras tentativas e inovações de efeitos especiais estão por trás do nascimento da saga. Nos bastidores revelados, é também muito interessante reconhecer os nomes famosos envolvidos, como a amizade entre os jovens George Lucas e Francis Ford Coppola, considerado como um de seus mestres, e a saudável competição entre Lucas e Steven Spielberg. Isso para não aprofundar as relações postas com o elenco, como a ousadia de Harrison Ford em questionar as próprias falas e assim conseguir melhorá-las ou as frustradas tentativas de Carrie Fisher em conseguir mais profundidade para sua personagem.

O agreste processo criativo de Star Wars é intercalado com histórias frutíferas e inspiradoras graças ao impacto que a saga teve por gerações inteiras. Conhecemos uma legião mundial de stormtroopers, um clube de montadores de R2-D2, uma escola de lutas com sabres de luz e um museu com 300 mil itens relacionados a SW. A efervescência é tão profunda que um dos casos mais simbólicos é como uma discussão sobre quanto custaria uma Estrela da Morte chegou a ter uma resposta oficial da Casa Branca. Um manifesto internacional em censos realizados em vários países por pessoas que apontavam a si mesmas como membros da religião Jedi também merece seu devido destaque.

Por várias gerações, Star Wars tem arrastado fãs de todas as idades aos cinemas, às lojas de brinquedos, às livrarias — praticamente a todo lugar que se vai, Star Wars está presente como uma entidade maior do que os filmes da saga. É indiscutivelmente o maior fenômeno da cultura pop e revolucionou não só a maneira de fazer cinema, mas também o relacionamento com o público, as estratégias de divulgação, os limites do licenciamento, o posicionamento das marcas. Não há como negar a existência de períodos antes e depois de SW; e, como demonstra o clima de expectativa pelo lançamento do vindouro episódio VIII, essa trajetória está bem longe de encontrar seu fim em uma galáxia muito, muito distante porque, definitivamente, Star Wars conquistou o universo.

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Toda quinta uma resenha!

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