livros resenha

Resenha de Quinta: Uma Longa Jornada para Casa (Saroo Brierley)

Experimente perguntar a uma criança de cinco anos qual o nome da mãe dela. A resposta provavelmente será um variado de “mamãe”. Onde mora? “Em casa”. Onde fica sua casa? “Na minha rua”. Com isso em mente, imagine: em um segundo, essa criança está acompanhada por alguém de confiança. No outro, em meio à multidão de um espaço público, já não está mais. É assim que começa a história de Saroo Brierley em Uma Longa Jornada para Casa.

Aos cinco anos, Saroo pede ao irmão mais velho que o deixe acompanhá-lo à cidade onde ele passava os dias em busca de dinheiro e comida. A família é tão pobre quanto grande e subsiste na miserável Índia dos anos 80 através da exploração desumana do trabalho da mãe, uma carregadora de pedras, e da mendicância dos dois filhos mais velhos. Guddu e Kallu são crescidos o suficiente para tomarem conta de si e passarem dias afastados em busca de dinheiro e alimento, mas Saroo só tem idade para cuidar da irmã mais nova, a bebê Shekila.

Durante a viagem ao destino do irmão, o menino adormece. Ao despertar, confuso, se vê sozinho na estação de trem. Ele não sabe onde está Guddu, mas vê um trem parado e imagina que pode ser lá que o mais velho se encontre. Saroo embarca no vagão e acaba atravessando o gigantesco país em uma jornada que vai mudar sua vida. Sem saber ler ou escrever, nem o nome de sua cidade natal ou o próprio sobrenome, ele é obrigado a sobreviver sozinho nas ruas da gigantesca e hostil Calcutá.

Pensar em uma criança de apenas cinco anos vivendo à própria sorte é desolador e revoltante porque, graças à narrativa do Saroo adulto e sobrevivente a tantos infortúnios, conhecemos uma realidade de pobreza extrema e naturalizada onde é normal e cotidiano encontrar pequenos Saroos dormindo debaixo de papelões em becos e criando estratégias para consumir a comida desperdiçada por adultos mais afortunados. Nessa verdadeira odisseia em que cada dia é um desafio de vida ou morte, o protagonista parece, de certa forma, protegido por um ser divino e escapa, por uma sorte não compartilhada com outros infantes, de perigos suscetíveis a qualquer um que viva em situação de abandono, da fome ao frio, da exploração sexual à morte.

A sorte de Saroo o leva a um orfanato em uma época em que a adoção de crianças por casais estrangeiros não passava por tantas barreiras burocráticas e o garoto perdido ganha uma família australiana, os Brierley. Os anos se passam, o menino torna-se adulto, mas Saroo não esquece suas origens. Ao contrário do clichê, ele não vive com um buraco no peito; pelo contrário, é muito feliz com os pais e o irmão adotivos. Isso não quer dizer, contudo, que não exista um assunto inacabado e uma curiosidade inquietante: onde está sua família biológica? Será que eles ainda o estão procurando? O que aconteceu quando o menino de cinco anos nunca voltou da viagem de trem? Até que, com a ajuda da tecnologia, ele tem a oportunidade de procurar pela agulha no palheiro que costumava chamar de casa.

Uma Longa Jornada para Casa é um livro relativamente curto (229 páginas apenas) com um ritmo surpreendente e sem excessos. Ainda que narre memórias, é curiosamente preciso e objetivo, dispensando delongas ou sentimentalismos. Saroo também é muito honesto com o leitor e deixa claro o que sente: confusão, indecisão, dor, alegria, alívio. Por sua perspectiva tão particular somos guiados por seu caótico país de origem em dois momentos distintos e temos a chance de colocar em discussão a realidade de um lugar tão grande e tão diferente da nossa cultura ocidental que parece até outro mundo.

A banalização da miséria é chocante e, por isso mesmo, inconcebível. Saroo relembra o quão difícil foi sua infância mesmo antes de se perder, quando os cinco membros de sua família dormiam em lençóis sobre o chão formado por lama, esterco de vaca e palha em uma casa de um cômodo só. A fome era tão constante que era quase parte de si. Frequentar uma escola era um luxo e, portanto, um sonho impossível. Contudo, o ambiente familiar mantinha sua harmonia e o desaparecimento de Saroo foi um sofrimento para ambas as partes.

Outro ponto passível de debates é a burocratização do processo adotivo. Mais de uma vez ao longo da narrativa, o próprio Saroo ressalta a própria sorte em ter sido adotado pelos Brierley. Além do resgate do perigo das ruas, o garoto teve oportunidades graças aos pais australianos com as quais nem sonhava com a família indiana. É comovente e ao mesmo tempo desolador perceber a felicidade do menino de cinco anos ao descobrir que o quarto novo é maior do que a casa antiga. Ou que ele vai ter sapatos. Saroo reconhece a reviravolta em seu destino, mas é lamentável pensar que toda essa vida quase não foi possível porque, pouco tempo após a finalização do processo para viver na Austrália, as leis indianas enrijeceram e tornaram a adoção tão difícil ao ponto de desestimular e até desistir. Há crianças abandonadas e vulneráveis aos montes; há casais dispostos a dar-lhes amor, proteção e uma vida; mas a ponte que poderia ligá-los para sempre tornou-se mais longa e árdua para ser percorrida.

Apesar do início trágico e da história dura, Uma Longa Jornada para Casa é também uma história reconfortante de autoconhecimento. A jornada de Saroo não se trata apenas do reencontro com a família perdida, mas também uma busca por um eu até então feliz, mas incompleto. Até voltar para casa.

 

[x] A história do rapaz indiano/australiano ganhou o mundo pelo tom improvável, mais um desses casos em que a arte perde feio para a vida real, e inspirou a produção de Lion, filme estrelado por Dev Patel, Rooney Mara e Nicole Kidman, indicado ao Oscar 2017.

[x] Adquira Uma Longa Jornada para Casa em livro físico ou e-book Kindle. Ao comprar com esses links o blog ganha uma pequena comissão da sua compra e você NÃO paga a mais por isso.

[x] Uma Longa Jornada para Casa foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

Toda quinta uma resenha!

2 thoughts on “Resenha de Quinta: Uma Longa Jornada para Casa (Saroo Brierley)”

  1. Que leitura difícil. Certeza que iria chorar em várias cenas.
    Parece ser bem intensa e reflexiva.. E apesar disso fiquei com vontade de ler e conhecer o desfecho quando ele se torna adulto.

    1. O curioso é que a forma como o Saroo conta a própria história não me comoveu nesse sentido. Fiquei muito tocada, é claro, mas ele é tão positivo, tão pra frente, tão bem resolvido, que não quis chorar. Na verdade, eu me chateei com a naturalização da miséria, com a banalização das dificuldades extremas… ele insiste na busca pela família, mas quando percebe que não tem mais jeito e vai ter que morar na rua, ele aceita e dá um jeito de sobreviver.

Deixe uma resposta