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Resenha de Quinta: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August (Claire North)

Quantas vezes já não pensamos “se soubesse que isso aconteceria, teria agido diferente”? Você já imaginou o que faria se tivesse a chance de viver sua vida outra vez? E que tal quinze vezes

Harry está no leito de morte. Outra vez. Não importa o que faça ou que decisões tome: toda vez que ele morre, volta para onde começou; uma criança com a memória de todo o conhecimento de uma vida vivida repetidamente. Nada nunca muda, até que, perto da décima primeira morte, uma garotinha de 7 anos lhe transmite uma mensagem do futuro: o mundo está acabando.

As primeiras quinze vidas de Harry August foi finalista do Prêmio Arthur C. Clarke 2015 e vencedor do prêmio John W. Campbell Memorial Award de Melhor Romance de Ficção Científica em 2015. Escrito por Claire North, pseudônimo da autora britânica Catherine Webb, o livro bebe de uma das fontes mais prolíficas do scifi, a viagem no tempo, ao mesmo passo em que dá seus próprios toques de originalidade a um tema já tão revisitado.

Harry August nasce na noite de Ano Novo em 1919, no banheiro feminino de uma estação de trem de uma cidade insignificante no interior da Inglaterra. Fruto do estupro do patrão rico sob a ajudante de cozinha assustada, é criado como filho adotivo de um casal de empregados da família. Cresce, é convocado para a Segunda Guerra Mundial, passa despercebido no conflito, retorna à casa onde passou infância e adolescência para viver uma vida monótona e sem grandes conquistas cuidando da propriedade, como o pai que o criou fez antes dele. No dia da queda do Muro de Berlim, em 1989, morre sozinho em uma cama de hospital, divorciado e sem filhos. Até que renasce exatamente onde e quando tudo começou.

Nosso protagonista e narrador é um kalachakra ou um ouroborano: ele é e não é, ao mesmo tempo, imortal.  Ele é porque pode viver para sempre, incontáveis vezes, a mesma vida, o mesmo período da história; e não o é porque está sempre condenado a morrer, em geral à mesma época e pela mesma causa, e renascer no mesmo ponto de partida, completando um ciclo. Em busca de entender a si próprio, Harry percorre o mundo procurando o sentido de sua existência tão peculiar: ele o persegue na religião, no amor, na filosofia, na história, no esoterismo, até sua sede de autoconhecimento desaguar na ciência.

Durante essa jornada Harry descobre a existência do ancestral Clube Cronus, uma sociedade secreta que protege e orienta aqueles que podem viajar no tempo através de vidas consecutivas. Para ser um membro, é necessário seguir as regras, que prezam sobretudo pela operação em silêncio e discrição ao longo dos séculos, obedecendo firmemente o preceito coletivo de não interferir no ciclo natural do tempo.

Mas sabendo que alguém como Hitler vai chegar ao poder e causar a morte de milhões de inocentes, você seria capaz de se abster? Tendo a consciência de que um desastre como a explosão do reator nuclear de Chernobyl vai ter consequências terríveis por gerações, você manteria o silêncio? Com todo o conhecimento acumulado em séculos, por que não ajudar a humanidade e contribuir para a sua evolução, eliminando os fatores que a ameaçam, já que eles sabem o que vai acontecer? Graças a ideias como essas, surge a grande ameaça dessa frenética e intrigante narrativa, o fim do mundo do qual Harry ouve falar no leito de sua décima primeira morte.

As primeiras quinze vidas de Harry August é de uma narrativa semelhante ao narrador: não-linear. Se em alguns momentos o recurso de ir e voltar no tempo e nas vidas contribui para aumentar o suspense e deixar o leitor apreensivo como se à beira de um abismo, em outros é confuso e dispensável. Fiquei com a sensação de que alguns capítulos são divagações que não contribuem para o andamento da trama e, por isso, poderia ser um livro mais enxuto do que suas quase 450 páginas. Há vezes em que parece ser necessário ter um caderno ao lado para acompanhar cada vida de Harry, tantos que são os vais e vens de sua memória! De fato, talvez até contribua para a leitura elaborar uma linha do tempo para todas as encarnações, discriminando o que acontece em cada uma delas para evitar que os eventos de uma se mesclem aos de outra.

Apesar das digressões, Harry é um narrador muito humano. Embora renasça infinitamente e preserve a sabedoria de séculos de vida, ele ainda passa por conflitos muito próximos. O que ele experimenta é similar aos dramas dos super-heróis que anseiam salvar o mundo e por isso abdicam de uma vida plena quando estão sem as máscaras; há um quê de sacrifício em sua jornada, de lutar por um bem maior. Ao mesmo tempo, a sua própria natureza o coloca em cheque e a relação pessoal que trava com sua Nêmesis é muito enriquecedora tanto para a construção do personagem, quanto da história.

Além disso, toda a concepção singular de viagem no tempo nesse livro nos remete a questionamentos tão antigos quanto a humanidade: por que estamos aqui? Qual o nosso propósito nesse mundo? Somos realmente os mestres da nossa existência ou há uma ordem natural das coisas que rege e coreografa esse teatro? Podemos mudar o nosso destino?

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[xAs primeiras quinze vidas de Harry August foi recebido em parceria com o Grupo Editorial Record.

Toda quinta uma resenha!

7 thoughts on “Resenha de Quinta: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August (Claire North)”

  1. Olá, tudo bem?

    Sou uma grande admiradora do gênero de ficção científica. Consigo ser sempre sugada por histórias com essa pegada. De cara, o livro já me chama atenção por envolver uma sequência de mortes que são sempre lembradas por ele. Acho que o livro proporciona vários questionamentos que me faço diariamente e são esses questionamentos que mexem comigo, que mexem com a minha vida. O fato do contexto estar inserido em vários momentos importantes da história do mundo é um ponto muito positivo. Uma pena que em alguns momentos a leitura seja cansativa e que algumas páginas sejam desnecessárias. Mesmo assim, fiquei com muita vontade de ler!

    Beijos!

  2. Olá
    O livro me pareceu bem interessante.
    Todo esse mistério e suspense me agrada, ultimamente tenho lido histórias assim.
    Fiquei bastante curiosa principalmente porque fala sobre viajem no tempo e tenta responder as perguntas que todos fazemos diariamente. Entrou pra lista de desejado!
    Bjus

  3. Já tinha colocado esse livro na minha lista de desejados, li algumas resenhas, mas ainda não havia lido nada tão detalhada igual a sua. Isso só me fez querer ler mais ainda esse livro. Adorei sua resenha de verdade.

  4. Caramba, adorei a história deste livro; não conhecia! Muito bom mesmo, excelente resenha também! A ideia da imortalidade em conflito com a mortalidade do personagem Harry, na minha opinião, é genial. Não que já não tivesse sido explorada mas não neste contexto apresentado.

    Parabéns à autora e à blogueira por esta resenha!

  5. Parabéns pela resenha! Não conhecia este livro, que tema interessante, deve ser bem reflexivo mesmo. Quem não queria viajar no tempo para consertar alguma coisa? kkkkk
    Abraços.

  6. Tentar retornar ao passado para modificar uma determinada situação já foi algo que eu tenha pensado.
    Mas 15 vezes pode ser realmente algo bem enfadonho, né? rsrs
    Já havia lido algo sobre o livro, mas não de forma tão instigante e completa.
    Me interessou muito, porque dá pra traçar vários paralelos com a nossa realidade e nos fazer refletir sobre a forma como vivemos a nossa vida.
    Adorei a dica! Sucesso!

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