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Resenha de Quinta: Valente (Vitor Cafaggi)

Garoto leva uma vida comum e sem graça. Garota está entretida em si mesma se recuperando do fim de um relacionamento e pensando no futuro. Garoto olha pela janela do ônibus e vê garota sorrindo ao se lembrar de uma piada. Garoto se apaixona e garota nem sabe que ele existe.

Uma história que inicia com uma troca de olhares em que alguém sai perdidamente apaixonado à primeira vista demonstra um grande potencial para preencher uma série de clichês batidos que estamos cansados de ver, de ler, de até ouvir falar! Mas graças ao talento e à sensibilidade do mineiro Vitor Cafaggi, nos contornos antropomorfizados de seus personagens animais, principalmente o protagonista Valente, um romântico e sonhador cachorro felpudo, a velha história surpreende, comove e gera uma identificação praticamente inevitável.

A série Valente (Valente Para Sempre, Valente Para Todas, Valente Por Opção, Valente Para o Que Der e Vier e o vindouro Valente Para Onde Você Foi?) conta as aventuras e desventuras amorosas do cachorrinho mais cativante do mundo dos quadrinhos. Nerd, romântico e meio desajeitado, tudo que ele quer é um amor. A história se desenrola em um clima de comédia romântica da Sessão da Tarde, com muitas referências à cultura pop e personagens verossímeis.

A escolha de antropomorfizar animais deu flexibilidade criativa aos traços de Cafaggi. Valente é o maior destaque, obviamente, por seu papel de protagonista, mas a escolha de fazê-lo cachorro casou bem com o universo expressivo que ele apresenta ao longo dos volumes. Ele abaixa as orelhas quando está triste, abana o rabo quando está feliz e flutua quando está apaixonado. Além de, é claro, não dispensar a cara de cachorro perdido na mudança quando seu coração é partido.

Ainda que a temática seja adolescente, acompanhando o fim do colégio e a entrada na universidade, a narrativa é tão leve que o assunto desperta lembranças do passado aos que já passaram dessa fase com um carinho quase nostálgico em vez de afastar o público mais velho. Aos que se encaixam na provável faixa etária de Valente e seus amigos, o match é perfeito: os diálogos sabem dosar o drama apocalíptico de tudo que acontece na adolescência com bom humor genuíno e algumas doses de ironia (a melhor amiga de valente, Bu, é especialista nisso).

A premissa, a bem da verdade, é muito simples. Tão simples que poderia ter dado muito errado e se perdido em um bege de mediocridade – não no sentido de ser ruim, mas de nem isso conseguir ser e encalhar no limbo do médio/tanto faz. O que aconteceu com Valente é o oposto: a simplicidade ressaltou o denominador comum que todos os leitores possuem. A abordagem das desilusões amorosas, das expectativas destruídas, do apoio das amizades, dos desafios de uma fase nova e desconhecida, trouxe familiaridade e empatia. No fim, todos torcemos para que Valente seja feliz, porque o cachorrinho que imagina os filhotes antes do primeiro encontro e sofre para entrar em forma ouvindo a trilha sonora de Rocky Balboa sou eu, é você, somos todos nós.

Extras

Ordem de leitura

#1 Valente Para Sempre

#2 Valente Para Todas

#3 Valente Por Opção

#4 Valente Para o Que Der e Vier

#5 Valente Para Onde Você Foi?

[x] Leia também: matéria que fiz com Vitor Cafaggi quando trabalhava no Caderno 3 do Diário do Nordeste.

Toda quinta uma resenha!

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