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Resenha de Quinta: Hiroshima (John Hersey)

Mal teve tempo de pensar que estava morrendo, pois logo constatou que estava vivo, imprensado entre duas vigas em V, como um bocado de alimento entre dois hashis imensos.

A bomba atômica lançada pelos Estados Unidos matou 100 mil pessoas na cidade japonesa de Hiroshima, em agosto de 1945. Um ano depois, a reportagem de John Hersey publicada em edição única e especial da revista The New Yorker reconstituía o dia da explosão a partir do depoimento de seis sobreviventes. Mais do que revolucionar o jornalismo vigente, a narrativa deu rosto à catástrofe da bomba: o horror tinha nome, idade, sexo, profissão, família e cultura.

A reportagem descreve como os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki afetaram indiscriminadamente a vida de seis pessoas de diferentes classes, sexos, faixas etárias, condições sociais e até nacionalidade. Hersey inicia o livro reconstituindo o dia da tragédia pelas lembranças de seus personagens: onde eles estavam, o que faziam, o que pensaram ao ver um grande clarão no céu. Foram eles o reverendo Kiyoshi Tanimoto, um pastor metodista educado nos Estados Unidos; Hatsuyo Nakamura, uma viúva de guerra e mãe de três crianças; Masakazu Fujii, médico proprietário de um hospital privado; padre Wilhelm Kleinsorge, um pastor jesuíta alemão designado para a cidade; Terufumi Sasaki, um jovem médico no Hospital da Cruz Vermelha; e Toshiko Sasaki: uma funcionária administrativa da East Asia Tin Works (sem parentesco com Terufumi Sasaki).

Principalmente durante o primeiro capítulo, intitulado “Um clarão silencioso”, John Hersey demonstra dominar duas habilidades que poderiam ser opostas, mas quando aliadas dão à luz um texto forte, coeso, preciso, capaz de transmitir as emoções de um momento tão confuso e desastroso sem cair no pieguismo ou no sensacionalismo: transmitir informação jornalística rigorosamente apurada e escrever a vida real pelo ritmo envolvente da ficção literária.

Os capítulos seguintes acompanham as consequências da bomba. Em “O fogo”, lemos sobre a devastação que Hiroshima experimentou imediatamente após a explosão, e os esforços dos sobreviventes do bombardeio, uma nova ordem conhecida como hibakusha, para conseguirem se salvar no Parque Asano; “Investigam-se os detalhes” relata como os rumores sobre o que aconteceu estavam assolando a cidade, enquanto os hibakusha ofereciam ajuda e conforto um para o outro; “Flores sobre ruínas” descreve as semanas após o ataque, em que os hibakusha tentam reconstruir suas vidas ao mesmo tempo em que sofrem as sequelas e condições de saúde que atormentaram o seu ajuste a uma vida normal. O último capítulo, “Depois da catástrofe”, foi escrito 40 anos mais tarde como uma conclusão para a obra e para os sobreviventes.

Hiroshima mantém um tom sóbrio de narração que permitiu fluir o relato oral de quem realmente viveu a história, mas não esqueceu o propósito jornalístico do relato. Ao mesmo tempo em que reconta o ocorrido em 1945, aponta os dados obtidos ao longo do ano posterior, porém de maneira tão consonante ao texto que não quebra a narrativa.

Como cristão, compadecia-se daqueles que estavam soterrados; como japonês, não suportava a agonia de ter sido poupado. “Deus, ajude-os; salve-os do fogo”, rezava.

Pela perspectiva ocidental, Hersey também deixou aflorar as diferenças culturais entre os povos de cada lado do mundo. Há um sentimento coletivo de culpa e sofrimento nos japoneses que sobreviveram, antes mesmo que eles tivessem consciência das terríveis consequências da radioatividade. As noções de honra e de sacrifício são muito caras a essa nação, que sofreu não só no aspecto visível – Hiroshima era um jóia graciosa que se transformou em um símbolo de destruição -, mas também no pedaço coletivo de alma que os unia como um povo.

Não é à toa que Hiroshima é considerada a reportagem mais importante do século XX. Ela permitiu que o mundo avaliasse o inacreditável poder destrutivo das armas nucleares e a terrível implicação do seu uso pela perspectiva mais brutal e honesta possível: os olhares das vítimas. Preocupado em analisar e contextualizar cada um de seus personagens na trajetória traçada ao longo das páginas e da vida própria, Hersey foi além da pauta e revelou aos Estados Unidos, o causador de toda aquela tragédia, e também ao mundo, uma das faces mais assustadoras da Segunda Guerra Mundial. Quando se pensa no conflito, é natural condenar o Holocausto dos judeus, mas não esqueçam a rosa de Hiroshima.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

(Vinícius de Moraes)

 

Toda quinta uma resenha!

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