listas livros

10 livros de jornalismo que parecem literatura

Foi durante as aulas de Língua Portuguesa que tivemos na escola que nos deparamos pela primeira vez com o gênero jornalístico da notícia. Talvez a sua professora tenha pedido uma redação cujo primeiro parágrafo deveria responder a algumas perguntas que nós jornalistas conhecemos como lead: o quê, quem, quando, como, onde. As informações não são organizadas cronologicamente, mas hierarquicamente: o mais importante vem primeiro. E graças a outras particularidades, os gêneros textuais jornalísticos são facilmente distinguíveis dos literários.

Até que alguns repórteres se cansaram desse formato e hoje não são poucos os exemplos dos textos jornalísticos que abraçaram as técnicas da literatura, trazendo mais profundidade, subjetividade, criatividade e diversidade às reportagens. Aqui vão alguns exemplos:

Fama & Anonimato – Gay Talese

No início dos anos 60, o repórter Gay Talese saiu pela ruas de Nova York e descobriu uma segunda Estátua da Liberdade, cuja única função seria confundir os desavisados. Constatou também que os nova-iorquinos piscavam em média 28 vezes por segundo; que sob chuva o movimento do comércio caía de 15% a 20%, mas menos gente se matava nesses dias; que um mergulhador ganhava a vida recuperando objetos perdidos no fundo da baía de Nova York; que as prostitutas promoviam anualmente um baile em homenagem aos cafetães da cidade, e que as faxineiras do Empire State encontravam mais ou menos 5 mil dólares por ano nas 3 mil salas do edifício.

Fama & Anonimato está repleto de informações assim: aparentemente inúteis, mas que, nas mãos de um escritor de primeira categoria, imprimem a textura real da cidade e o rosto de seus habitantes. Este livro reúne três séries de reportagens: a primeira, sobre o estranho universo urbano que é Nova York; a segunda, sobre a saga da construção da ponte Verrazzano-Narrows, e a terceira, sobre artistas e esportistas americanos. É nesta última parte que se encontra o sensacional “Frank Sinatra está resfriado”, em que o repórter faz um retrato certeiro do cantor, sem que tenha conseguido entrevistá-lo, mas consultou praticamente todas as pessoas que orbitavam em torno dele.

Filme – Lilian Ross

Ao saber que o diretor John Huston preparava a adaptação para o cinema do romance clássico da literatura norte-americana O emblema rubro da coragem, de Stephen Crane, Lillian Ross, jornalista da revista The New Yorker, decidiu acompanhar todas as fases da realização do filme. Ross foi para Hollywood e, na tentativa de descobrir como realmente funcionava a indústria cinematográfica, seguiu, durante quase dois anos, os passos da equipe de A glória de um covarde (título brasileiro da obra de Huston), desde a confecção do roteiro até o lançamento em Nova York.

Hiroshima – John Hersey

A bomba atômica lançada pelos Estados Unidos matou 100 mil pessoas na cidade japonesa de Hiroshima, em agosto de 1945. Um ano depois, a reportagem de John Hersey reconstituía o dia da explosão a partir do depoimento de seis sobreviventes. A narrativa deu rosto à catástrofe da bomba: o horror tinha nome, idade e sexo. Ao optar por um texto simples, sem enfatizar emoções, o autor deixou fluir o relato oral de quem realmente viveu a história. Quarenta anos mais tarde, Hersey retorna a Hiroshima e escreve o último capítulo da história dos hibakushas – as pessoas atingidas pelos efeitos da bomba. Hiroshima permitiu que o mundo avaliasse o inacreditável poder destrutivo das armas nucleares e a terrível implicação do seu uso.

Na Pior em Paris e Londres – George Orwell

Nem só de distopias viveu George Orwell! No final do anos 20, decidido a tornar-se escritor, o jovem Eric Arthur Blair resolveu viver uma experiência pioneira e radical: submeter-se à pobreza extrema – e depois narrá-la. Em 1928, instalou-se em Paris com algumas economias e começou a dar aulas de inglês – mas em pouco tempo perdeu os alunos e foi roubado. Sem dinheiro, passou fome, penhorou as próprias roupas, trabalhou em restaurantes sórdidos e por fim partiu para a Inglaterra. Enquanto esperava por um emprego incerto, radicalizou ainda mais sua experiência convivendo intensamente com os mendigos de Londres, perambulando de albergue em albergue, atrás de dormida, comida e tabaco. É essa vivência miserável que Orwell relata com humor e indignação, distanciamento e participação.

Medo e Delírio em Las Vegas – Hunter Thompson

Imagine alugar um conversível vermelho e ter como destino Las Vegas. Imagine torrar o pagamento de uma matéria que ainda não foi feita e encher o carro de drogas de todos os tipos. Agora imagine ter ao seu lado o seu advogado, um samoano nada confiável. Pronto. Aqui está a história de Medo e delírio em Las Vegas, o livro que revolucionou as bases do texto jornalístico e transformou Hunter Thompson em um dos grandes retratistas dos ideais libertários dos Estados Unidos nos anos 60.

Chatô, O Rei do Brasil – Fernando Morais

Dono de um império de quase cem jornais, revistas, estações de rádio e televisão – os Diários Associados – e fundador do MASP, Assis Chateaubriand, ou apenas Chatô, sempre atuou na política, nos negócios e nas artes como se fosse um cidadão acima do bem e do mal. Mais temido do que amado, sua complexa e muitas vezes divertida trajetória está associada de modo indissolúvel à vida cultural e política do país entre as décadas de 1910 e 1960, recriada em Chatô, o rei do Brasil.

O Livro Amarelo do Terminal – Vanessa Barbara

A jovem escritora Vanessa Barbara faz sua estreia editorial com um surpreendente livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê, em São Paulo. Valendo-se de recursos narrativos variados, que vão da reportagem clássica ao humor nonsense, o olhar da escritora pinça, em meio ao tumulto, os tipos que passam por lá todos os dias – vendedores, crianças, velhinhas, surfistas -, e registra “uma história oral” do lugar a partir dos fragmentos de conversas colhidas ao acaso. Essa polifonia aparece também no projeto gráfico do livro. Suas páginas amarelas, de gramatura mais fina, brincam com a transparência e a sobreposição parcial das letras. Já os capítulos de cunho mais histórico são impressos em papel semelhante ao carbono, como os dos bilhetes de ônibus.

A Luta – Norman Mailer

Zaire, 1974. Muhammad Ali, que perdera o título mundial dos pesos pesados por se recusar a lutar no Vietinã, desafia o campeão George Foreman. É a autonomia negra versus o establishment branco. Um dos relatos mais notáveis já escritos sobre eventos esportivos, A luta é também um retrato magistral das tensões políticas e ideológicas dos anos 70. Mas é pela força da palavra que este livro faz o coração acelerar: posto na pele do boxeador, o leitor pensa e sente como ele. Sente, por exemplo, que antes de entrar no ringue precisa vencer o inimigo interno: seu próprio medo. Norman Mailer, Prêmio Pulitzer em 69 e 80, consegue a proeza de nos fazer acompanhar a maior luta de boxe do século como se nenhum de nós conhecesse o resultado.

Dez Dias que Abalaram o Mundo – John Reed

Dez dias que abalaram o mundo pretende ser um testemunho vivo e narrado no calor dos acontecimentos da Petrogrado nos dias da Revolução Russa de 1917. Reed conviveu e conversou com os grandes líderes Lênin e Trotski, e acompanhou assembleias e manifestações de rua que marcariam a história da humanidade.

Bônus: A Sangue Frio – Truman Capote

Fiquei em dúvida por colocar ou não A Sangue Frio nessa lista porque há uma série de controvérsias com respeito à apuração da história. Contudo, concordando ou não com o método ou o estilo do autor, o fato é que a reportagem é um grande marco no jornalismo.

Fruto de uma intensa investigação feita ao longo de meses, A Sangue Frio conta a história da morte de toda a família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie e dos filhos Nancy e Kenyon – uma típica família americana dos anos 50, pacata e integrada à comunidade -, o livro reconstitui a trajetória dos assassinos. Perry Smith e Dick Hikcock planejaram o crime acreditando que se apropriariam de uma fortuna, mas não encontraram praticamente nada.

Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato da família, em 1959. Quase seis anos depois, em 1965, a história foi publicada em quatro partes na revista The New Yorker.  Além de passar mais de um ano na região de Holcomb, investigando e conversando com moradores, ele se aproximou dos criminosos e conquistou sua confiança. E é principalmente nesse ponto que brotam críticas há décadas. O autor dizia não gravar ou anotar conversas para não intimidar o interlocutor, confiando apenas na própria memória para recuperar cenas, diálogos e informações; o responsável pela checagem dos fatos era amigo do escritor e teve muitos questionamentos não esclarecidos quanto ao texto original; há severas suspeitas sobre relação entre Capote e Perry Smith, um dos assassinos, o que pode ter resultado em modificações nos detalhes do crime; e, como cereja no bolo, o próprio jornalista assumiu que o último capítulo, um encontro entre o detetive que investigou o crime e a melhor amiga da adolescente assassinada, é completamente ficcional.

26 thoughts on “10 livros de jornalismo que parecem literatura”

  1. Bem interessante falar sobre jornalismo literário, nunca tinha lido um post assim. Parabéns. Mas desses que citou eu leria: o primeiro que achei interessante, apesar de parecer monótono, e o de chatô (amo tv).

    Beijooos!

    1. Essa semana vai ser toda temática porque sexta é o dia do jornalista, então vem mais coisa por aí 🙂 Fama&Anonimato é sensacional. O perfil que o Talese constrói para uma cidade, fazendo com que ela pareça uma pessoa, é genial, não tem outra palavra pra definir.

  2. Faço Publicidade, mas sempre flertei demais com jornalismo, então certamente leria alguns destes na lista. Amei que teve Orwell!

    Compartilhando com meus amigos de Jornalismo agora mesmo.

    Grande abraço!

    1. Orwell é um desses caras cheios de surpresa! Esse livro é bem pouco conhecido, apesar do autor incrível que tem. Agradeço a divulgação 😀 É um presente pro dia do jornalista! haha

  3. De todos os livros citados eu só conhecia Chatô, O Rei do Brasil. Na verdade eu nem cheguei a lê-lo, só folheei. Achei a lista interessantíssima. Vou anotar aqui. Espero ter a oportunidade de ler alguns.

    Beijos

    1. Dê uma chance para o jornalismo te surpreender como leitora 🙂 Aconselho Fama&Anonimato para começar porque são várias histórias em um livro só.

  4. Poxa, que legal a ideia dessa lista! Muito bacana da sua parte trazer indicações de livros de “jornalismo literário”, afinal eu mesma – que adoro ler – não li muitos livros nesse estilo. Fiquei bastante interessada pelo livro do George Orwell e por Dez Dias que Abalaram o Mundo.

    Beijos, Vickawaii
    http://www.neverland.com.br

    1. A leitura e a discussão do jornalismo literário infelizmente ainda é algo muito do próprio nicho jornalístico. Eu não conheço leitores do gênero que não sejam jornalistas e isso é empobrecedor, limitante. Há tantas boas histórias reais que merecem sair do nosso círculo!

    1. O jornalismo literário infelizmente ainda é algo muito restrito e corporativista dos jornalistas, mas são tantas – TANTAS! – histórias incríveis que faz pena não ganharem o mundo.

  5. ANOTADÍSSIMOS! Eu peguei trauma de livros jornalísticos depois de OJ Simpson (que comecei há 1 ano e meio!), pela narrativa ser extremamente travada por conta de TANTOS detalhes. Eu consegui emprestado o Dez dias que abalaram o mundo, mas ainda não bateu “aquela” vontade, sabe? Só no aguardo da bendita hora :B

    1. Sabe um que tem 37kg de detalhes, mas te encanta em vez de cansar? Fama&Anonimato. Lê o perfil que o Talese faz de NY, é de querer tirar um visto e se largar pra lá NA HORA!

    1. É um gênero ainda um pouco restrito aos jornalistas, mas que merece leitores de todas as profissões pra provar que a vida real é tão cheia de surpresas quanto a ficção 🙂

    1. Oi, tudo ótimo! O jornalismo literário ainda é muito mantido dentro do próprio círculo de jornalistas, mas é um gênero capaz de agradar a todo tipo de leitor. Fama&Anonimato é um excelente começo!

  6. Puts Andressa, são posts como o seu que me deixam triste de deixar as leituras de lado para produzir conteúdo para o Uma Vida Qualquer.
    Separei alguns títulos aqui para entrar na rotina e, dessa forma, me organizar para conseguir ler mais.

    Obrigado pelo post!

    1. É questão de prioridade, né? Infelizmente às vezes o trabalho consome inclusive o tempo do lazer. Aqui no blog eu já dei dicas para organizar e potencializar leituras mesmo para quem tem pouco tempo disponível. Dá uma olhada na seção de dicas, quem sabe te ajuda nessa empreitada 😉

    1. Vou te contar que nem mesmo na faculdade de Jornalismo a gente tem tanto contato assim com o gênero! É mais por pesquisa própria, escutar uma ou outra pessoa comentando a respeito… então ajuda a divulgar, essas histórias precisam chegar a mais pessoas!

  7. Eu adoro ler livros jornalísticos porque me identifico muito com esse tipo de narrativa (meio que é o que eu faço pra viver né rs), eu li muitos bons, inclusive um dos meus favoritos é o da Escola Base, que foi uma história complicadíssima pro jornalismo em si e de conscientização sobre a consequência de falsas acusações e especulações.

    Beijos

    1. Não sabia que tinha um da Escola Base! Esse caso é famosíssimo, acho que é praticamente obrigatório na faculdade. Vou atrás!

    1. Ai, vem cá, me dá um abraço! Finalmente alguém que já conhecia! hahaha <3 Quero ler Bonequinha de Luxo, lembro que fiquei chocada quando soube que o filme era baseado em uma história do Capote.

Deixe uma resposta