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Resenha de Quinta: Hibisco Roxo (Chimamanda Ngozi Adichie)

A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.

Mais do que justificar o próprio título, o trecho acima dá o tom da narrativa e do enredo de Hibisco Roxo, romance de estreia de Chimamanda Ngozi Adichie, uma das mais influentes e aclamadas escritoras africanas da atualidade.

Protagonista e narradora de Hibisco Roxo, a adolescente Kambili tem uma vida muito rígida; seus dias passam segundo as determinações de um horário inviolável estipulado por seu pai, em que só há espaço para estudo, família e Deus, não necessariamente nessa ordem. Eugene, seu Papa, é um proprietário de indústrias e jornais cuja fortuna foi construída do zero. De raízes pobres, Eugene acredita ter sido salvo pelo missionários brancos e católicos enviados à Nigéria durante a colonização e tornou-se um discípulo fervoroso da fé cristã.

É com esse mesmo fervor que Papa inferniza e lentamente destrói a vida de toda a família. A riqueza financeira trouxe uma série de privilégios surreais, ainda mais considerando o preconceito arraigado à pobreza quando pensamos na África: mansões suntuosas, casas de veraneio, motoristas particulares, doações à caridade. Com tantas facilidades, Deus – e Eugene – só podem esperar o melhor vindo de seus filhos Kambili e Jaja, logo um segundo lugar na classe não é tolerado sob nenhuma circunstância. Ou uma missa sem comunhão. Ou o convívio com quem recusou a religiosidade branca. A obediência às normas de Eugene e do catolicismo é quase servil e a punição para o contrário deixa rastros frequentes de sangue, mágoa e rancor.

Contraditório por excelência, Eugene é um benfeitor dos pobres e apoiador do jornal mais progressista do país, o único que ousa contestar o golpe político vivido na Nigéria. Contudo, é o mesmo homem que rejeita o próprio pai, um idoso encantador, mas que se recusou a abandonar sua fé e seus deuses anteriores aos brancos, transformando-se para o filho na imagem do inferno. Eugene também renega a irmã, uma professora universitária e esclarecida, por seus comportamentos e posicionamentos mais modernos.

Apesar disso, Papa autoriza Kambili e Jaja a passarem uma temporada na casa de sua tia, Ifeoma, e na companhia de seus três primos Amaka, Obiora e Chima. Nesse período afastados do controle paterno, os irmãos conhecem um outro lado da vida, da convivência familiar e da Nigéria. Descobrem a pobreza e a corrupção, mas também o amor, a alegria e as próprias vozes, literal e metaforicamente.

Hibisco Roxo pode ser considerado um romance coming of age ou de amadurecimento. Em uma semana afastada do pai, de suas rígidas regras e de todo o terrorismo religioso-familiar do ambiente em que cresceu, Kambili descobre mais de si e dos outros do que em quinze anos vivendo em uma bolha. Nos primeiros momentos da leitura, a ingenuidade da moça é de chocar e até mesmo provocar um certo asco no leitor; boba, passiva, cega pela obediência e ansiosa para agradar seu Papa, Kambili nos dá vontade de sacudir e perguntar “mas por que você não reage?”.

Porque romper com uma cultura de repressão por conta própria é de uma dificuldade abismal, especialmente para uma jovem que não conhece outra realidade. A narrativa é muito honesta e respeitosa com a construção de sua protagonista, apresentando os dilemas com os quais ela luta sem esquecer quem a garota foi por toda a sua vida em detrimento da mulher que ela pode e quer se tornar.

Eu sorrira, correra, rira. Meu peito estava repleto de alguma coisa parecida com espuma de banho. Leve. A leveza era tão doce que eu podia sentir seu gosto na língua, tinha a doçura de um caju maduro, amarelo-vivo.

Hibisco Roxo é a história do desabrochar de uma jovem que tenta aprender a se abrir para a beleza do mundo e da vida sem o peso da culpa atribuído ao pecado. Kambili vem de uma família esfacelada e severamente quebrada pelo fanatismo religioso que corrompeu os laços de amor em temor, paralelo que pode ser feito com uma Nigéria devastada e humilhada por um processo colonizador que a fez ter vergonha das próprias origens. Contrariando o perigo das histórias únicas, Chimamanda conduziu leitor e protagonista por um cenário social, político e religioso da nação. Pela voz de Kambili, a autora apresenta, de forma sensível e orgânica, um retrato contundente do seu país, mostrando os remanescentes invasivos da colonização inglesa, a fragilidade democrática e o conflito entre crenças.

Hibisco Roxo é um romance que consegue contar diversas e densas e histórias em uma só, sem perder a leveza da narrativa nem a força do tema, que vai além do político e do social, mas alcança o âmago do pessoal: é uma história sobre crescer e descobrir o verdadeiro eu.

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Toda quinta uma resenha!

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