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Resenha de Quinta: As Boas Mulheres da China (Xinran)

Não recebi nenhum elogio por salvar a menina, só críticas por “deslocar soldados, causar agitação entre as pessoas” e desperdiçar o tempo e o dinheiro da emissora. Fiquei abalada com essas queixas. Havia uma garota em perigo e, ainda assim, ir em socorro dela foi visto como “exaurir as pessoas e drenar o Tesouro”. Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na China?

Entre 1989 e 1997, a jornalista Xinran entrevistou mulheres de diferentes idades e condições sociais para compreender a condição feminina na China moderna. Seu programa de rádio, Palavras na Brisa Noturna, discutia questões sobre as quais poucos ousavam falar e incomodou o suficiente para obrigar a radialista a se mudar para Londres, onde pôde publicar os dilacerantes relatos presentes em As Boas Mulheres da China.

Ainda que vivamos na era da globalização, da velocidade na produção e na reprodução de conteúdos, é curioso perceber como a tigela de informação que consumimos ainda é muito seletiva e até mesmo pobre quando pensamos no caldeirão borbulhante total. Isso faz com que muitas vezes tenhamos uma mente mais fechada que funciona como uma máquina de repetir as mesmas ideias, algumas delas baseadas apenas em pré-julgamentos. O que me chamou a atenção para comprar e ler As Boas Mulheres da China foi a vontade de romper os preconceitos arraigados na minha visão ocidental sobre um país e uma civilização milenares, com a esperança de que não fosse tão ruim quanto eu pensava.

Era muito pior do que eu pensava porque a vida se serve de artifícios tão distintos e, nesse caso, tão cruéis, que se não fosse verdade seria o pior tipo de literatura.

Com cautela e paciência, Xinran conseguiu romper uma barreira muito forte pelo peso do tempo e da tradição e colheu inúmeros relatos de mulheres. Moças e velhas, ricas e pobres, há um denominador comum de humilhação, miséria, abandono, submissão e maus tratos. Vida íntima, violência familiar e opressão perpassam e destroem quase todas as vidas pinçadas como exemplos para a regra da mulher chinesa.

São histórias como as de Hongxue, que começou a ser abusada sexualmente pelo pai aos 11 anos e se forçava a ficar doente, pois no hospital estaria a salvo do pesadelo com quem dividia o teto; de Hua’er, violentada em nome da “reeducação” promovida pela Revolução Cultural; da catadora de lixo que impôs a si mesma um ostracismo voluntário para não envergonhar o filho, um político bem-sucedido; ou ainda a de uma menina que perdeu a razão em consequência de uma humilhação intensa fruto de abusos físicos e emocionais.

O que são as mulheres, exatamente? Os homens devem ser classificados na mesma espécie que as mulheres? Por que é que eles são tão diferentes? Livros e filmes podem dizer que é melhor ser mulher, mas não consigo acreditar. Nunca achei que isso fosse verdade e jamais vou achar.

Quem são as boas mulheres da China? Para aquela cultura, são as que aceitaram para sempre e sem reclamar o destino da submissão ao homem: primeiro ao pai, depois ao marido e por fim ao filho. Nunca donas de si, nunca conhecedoras de si e, principalmente, nunca livres do peso dos outros. Os relatos colhidos por Xinran são de vozes silenciadas há tantos anos quanto é possível contar, cuja mera enunciação é um desafio não só à sociedade, como a elas mesmas. O olhar da jornalista na condução dessas histórias é de alguém na fronteira entre dois mundos, já que ela é uma mulher chinesa que aos 22 anos ainda achava que engravidaria por segurar a mão de um homem, tal era a repressão sexual e educacional, e ao mesmo tempo contradiz o que é esperado dela ao abrir espaço em seu programa para a revelação das vidas secretas e cheias de provações de mulheres chinesas que são e não são como ela.

Apesar de proibido no início do século XX, o costume de atar os pés das meninas para que eles encolham ainda permanece, principalmente nas zonas rurais chinesas, porque pés pequenos são considerados símbolos da beleza feminina pelos homens orientais. Metaforicamente ou não, essas amarras torturantes não se limitam aos pés e estendem-se como tentáculos por todos os aspectos da vida das mulheres chinesas. O livro é carregado de dor, sofrimento, humilhação e retrocesso do início ao fim. A leitura é pedregosa, tortuosa e dilacerante ao nível das lágrimas porque a única coisa que nos separa, personagens e leitoras, é um acaso do destino, uma roleta da fortuna em que eu dei sorte e elas não: eu fui privilegiada por nascer em um lugar em que ser mulher, ainda que difícil e desafiador, não é um fardo nem um crime.

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Toda quinta uma resenha!

21 thoughts on “Resenha de Quinta: As Boas Mulheres da China (Xinran)”

  1. Uau, parece um livro interessante, apesar do assunto ser bem pesado. Mas é importante entender como outras culturas tratam as mulheres ao redor do mundo, até para entender o que precisa ser mudado, né?
    Beijos
    Mari

    1. É pesadíssimo! Não foi proposital, mas neste março eu fugi um pouco do eixo dos falantes de inglês e me aventurei em livros da Nigéria, do Paquistão, da China e pude perceber que, infelizmente, por mais diversas que sejam as culturas, muitas têm como ponto comum o sexismo e a misoginia. É triste, ao mesmo tempo que é esclarecedor.

  2. Amiga, comecei a ler, e que pesado! A nossa profissão, de vez em quando, tem dessas: vendo a dificuldade dela em conseguir ceder mais espaço pras cartas no programa, tudo por conta de tramoias editoriais, é bem intenso, bate uma impotência danada :\ E além do impacto das próprias histórias, é muito surpreendente ver a cultura chinesa mostrando um lado tão conservador e sexista.

    1. Né isso? Ser jornalista e conhecer o meio me fez admirar ainda mais a ousadia da Xinran em peitar, em desafiar, em não desistir de uma pauta que ela considerava importante… Como as histórias são independentes, acho que dá pra intercalar com leituras mais leves, porque eu li em poucos dias e fiquei arrasada depois. Foi uma experiência muito parecida com ler Svetlana.

    1. Foi a escolha do clube Leia Mulheres de Fortaleza para o mês de março, apesar de eu ter lido há mais tempo. É uma escolha bem popular no LM, procura saber se tem na sua cidade! ;*

  3. Sabe aquela resenha que você lê palavra por palavra, quase sem respirar? Muito bem escrita, e me chamou atenção não só pela forma com que foi conduzida, como também por se tratar de um livro oriental. Nós não temos conhecimento/proximidade com a China e, eu por exemplo, ao pesquisar sobre o país, procurei sobre os templos, a religião, a muralha da China e mesmo sobre a “sociedade como um todo”, mas não me foquei na figura da mulher. É triste saber dessas histórias e com certeza é um livro pesadíssimo, mas é o tipo de coisa que não podemos fechar os olhos.

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

    1. Ô, Vick, muito obrigada! É um aspecto ainda muito pouco discutido, principalmente porque é uma luta para destruir um alicerce muito sólido em uma cultura milenar, mas encarada como exótica, distante.

  4. Esse parece ser mais um daqueles livro tapa na cara. Eles tratam das verdades que são negligenciadas, mas que precisam ser ditas e quando ouvimos doem por serem a realidade de muitas pessoas por aí.

    1. E você pensa que poderia ser você! Esse livro me dói porque não é um acidente, não é uma catástrofe que traz tanta dor: é uma cultura.

  5. Apesar de ser bem diferente do meu estilo literário preferido (ficção fantástica), eu tenho procurado muito pela literatura oriental. Esse livro acaba se tornar obrigatório e prioritário na minha lista por um detalhe: sua resenha. Já tinha ouvido falar sobre “As Boas Mulheres da China”, mas nunca tinha sido motivada a lê-lo. Obrigada por esse incentivo. 😉

    1. Que coisa maravilhosa! No fim do post tem o link pra compra na Amazon, se você decidir comprar e usá-lo vai ajudar a manter o blog 🙂 Meu gênero favorito também é ficção especulativa, mas esse ano tenho tentado ampliar meus horizontes literários e as experiências estão sendo incríveis! Sair da zona de conforto pode ser muito prazeroso também.

  6. Não conhecia este livro, mas como você apresentou ele tão bem fiquei curiosa, principalmente se tratando de livros com uma pegada mais obscura no sentido de tratar temas bem pesados. Acho que vou encarar esta leitura em algum momento de minha vida!
    Beijinhos

  7. Acho esse tipo de livro muito importante, assim aprendemos a não cometer os mesmo erros e ao conhecer a história dessas vitimas damos vozes a elas.

    Na mesma linha recomendo “Para Poder Viver”, que conta a história de uma menina norte que coreana que consegue fugir da ditadura do país.

  8. Esse livro é pesado, mas totalmente necessário. Lembro de ter lido e ficado dias de ressaca literária pensado em todo este sofrimento e angustia. Mas no geral achei uma leitura muito boa.

    Adorei a resenha!

    Beijo

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