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Resenha de Quinta: Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lionel Shriver)

Desculpe o transtorno, mas precisamos falar sobre o Kevin, sobre a maternidade, sobre a violência intrínseca, sobre a romantização da infância.

Precisamos Falar Sobre o Kevin é um livro que começamos a ler pela capa, principalmente se a edição que cair em suas mãos for a anterior ao filme. Em tons de cinza, vemos uma criança parada em meio a um bosque usando uma macabra máscara de um animal peludo. A direção da cena fotografada dá todo o clima das páginas seguintes: uma trama perturbadora e sombria que teimamos em negar sua verossimilhança para melhor dormirmos à noite, porque se encararmos o que é retratado como real, dê adeus a algumas das suas esperanças no mundo.

O livro publicado em 2003 trouxe holofotes ao nome de Lionel Shriver, embora esse não tenha sido seu primeiro – foi, na verdade, o sétimo. Mas também pudera! O romance trata de um massacre escolar fictício segundo a perspectiva da mãe do assassino, Eva Khatchadourian, que relembra o passado de seu filho, Kevin, ao mesmo tempo em que naufraga na culpa por aquilo que ele se tornou. Narrada em primeira pessoa e em tom confessional através de uma série de cartas de Eva para seu marido, a trama não obedece à linearidade temporal, indo e voltando entre passado e presente para não só contar ao leitor como Kevin chegou onde chegou, como também para apresentar a voz desconsiderada de sua mãe em relação ao acontecimento que mudou a vida de tantas pessoas, inclusive a dela própria.

Lionel Shriver

Não se engane: Precisamos Falar Sobre o Kevin não é um livro fácil. Tanto a temática é extremamente pesada quanto a narrativa é densa e até um pouco lenta, o que, paradoxalmente, não significa que não seja agradável. Eva nos coloca a par de cada pormenor que um dia pode ter levado seu filho a ser um assassino em massa em uma riqueza de detalhes que poderia ser enfadonha se não fosse perturbadora. Talvez seja aquele instinto carniceiro humano que não nos permite desviar o olhar do sanguinolento, do fúnebre, do moribundo, mas ao mesmo tempo em que o livro nos pesa, ele também nos encarcera à própria leitura, não permitindo que abandonemos antes do fim. Porém, um conselho aos futuros leitores: esse livro pode não ser indicado aos que sonham em ter filhos.

Isso porque todos os mitos dos comerciais de margarina relacionados à família e, principalmente, à maternidade são completamente desconstruídos nesse livro. De uma maneira dura e até sufocante, Lionel ousou deixar muito claro que nem todas as mulheres nasceram para serem mães e que, mesmo que esse de fato seja um sonho alimentado em conjunto pelo casal (que não foi o caso de Eva, que engravidou para agradar ao marido), o amor não nasce com a criança nem se nutre umbilicalmente. Pelo contrário: entre Eva e Kevin há somente sentimentos negativos em duas vias. A mãe se ressente do filho e vê nele apenas um ser perverso que lhe roubou o amor do marido, a independência e até mesmo a credibilidade. Por outro lado, Kevin parece ter nascido mau. Se isso é possível? Eu não sei e acho que prefiro não saber. O fato é que, na narrativa, Kevin propositadamente faz da vida da mãe um inferno. Dissimulado, maldoso, vingativo, egoísta, o garoto desde a mais tenra idade – expressão que hoje percebo o quanto tem de romantizado, já que de inocente ele não tinha nada – se mune dos mais vis esquemas com o único objetivo de fazer a mãe sofrer.

Não pense, contudo, que o ato final de Kevin – ou KK, como passa a ser conhecido quando torna-se uma celebridade após assassinar mais de uma dezena de pessoas – é direcionado somente a Eva. Não. Ainda que formalmente não se tenha mencionado o termo, o livro é um material excelente para a discussão de disfunções psicológicas como a psicopatia e a sociopatia. Kevin não nutre sentimento algum por nada nem ninguém e está constantemente entediado. A cada olhar enviesado, a cada comentário nocivo, uma pergunta martela na cabeça: e se meu filho fosse assim?

Um adendo: fala-se muito sobre o papel da mãe/mulher, mas Kevin teve um pai presente. Mais do que isso: Franklin é a razão de Kevin sequer existir. Daí surge um relacionamento cheio de conivências, condescendências e enganos. O filho manipula o pai como um fantoche para servir aos seus caprichos, colocando-o contra a mãe e até fomentando crises no casamento. Mas se houver culpa em Eva, também há em Franklin: ao menos nisso que a justiça seja feita.

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