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Resenha de Quinta: Quarto (Emma Donoghue)

Quem se propõe à polêmica precisa estar preparado. No que se refere à arte, em especial o cinema e a literatura, há um limite muito tênue entre os conflituosos terrenos que dividem o que é sensacionalista do que é sensível e cruzar a linha divisória é tão simples quanto um passo em falso. Um ano após a leitura de Quarto, da irlandesa Emma Donoghue, eu ainda sinto muita certeza ao afirmar que a autora montou todo o seu acampamento em um ponto onde observava tranquilamente o lado em que é natural explorar o sentimento alheio sem nunca ousar colocar um dedinho que seja nessa área tão suja.

Jack é um esperto garotinho que acaba de completar cinco anos. Todo o seu mundo está compreendido entre as quatro reforçadas paredes de um quarto, lugar onde nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, ela o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la. O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos.

Durante o primeiro ato do livro, acompanhamos a rotina de Jack e sua mãe no quarto. A ótica infantil e ingênua do menino é, ao mesmo tempo, delicada e dilacerante para nós leitores, já que temos a consciência da crueldade do crime do qual ele está sendo protegido. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack, uma vida que ele não pode comparar com mais nada porque aquilo é tudo que ele conhece. Sequestrada há sete anos, ainda enquanto adolescente, a mãe encontrou na existência de Jack não só um motivo para continuar vivendo, mas para sonhar e arquitetar uma fuga.

Embora seja fruto de um abuso sexual, de um trauma incomparável, a relação entre mãe e filho é a flor que nasce na adversidade. Escorreram lágrimas dos meus olhos quando li todo o cuidado da mãe para criar um ambiente em que Jack pudesse se desenvolver, uma bolha na escuridão onde ele pudesse viver sua infância. Apesar de toda a dor da situação em que ambos vivem, eles também conhecem o amor um pelo outro. São melhores amigos, companheiros, Bonnie e Clyde em um ousado plano de fuga, que conta com uma boa dose de sorte e a bravura de Jack em se lançar, pela primeira vez em sua curta vida, no desconhecido Lá Fora.

A narrativa de Quarto conduz o leitor pelo horror do cativeiro pela perspectiva das duas vítimas e nunca pela do agressor. Pouco sabemos do velho Nick, mas não é dele essa história, não é ele quem nos interessa. As rachaduras na alma da mãe e as grandes descobertas de Jack em um mundo inteiramente novo e por vezes hostil são tratadas com zelo, mas não condescendência. Ambos são explorados no gradiente de suas humanidades, com momentos felizes, tristes, desesperados, aliviados, sôfregos. Jack e sua mãe não são heróis, apenas sobreviventes. Eles desejam apenas o direito outrora negado de viverem, ao mesmo tempo, juntos e livres.

[x] A adaptação cinematográfica de Quarto concedeu merecidamente o Oscar de Melhor Atriz em 2016 para Brie Larson. Jacob Tremblay não chegou a ser indicado, embora merecesse.

Toda quinta uma resenha!

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