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Resenha de Quinta: Maus (Art Spiegelman)

O Prêmio Pulitzer é um prêmio norte-americano concedido a pessoas que realizam trabalhos de excelência nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical. Criado em 1917, é administrado pela Universidade de Columbia (NY) e uma das mais respeitadas condecorações da atualidade. Sabendo disso, o que podemos esperar de uma obra que “obrigou” o comitê organizador a criar uma categoria específica para ela e se mantém até hoje como a única de seu gênero a vencer a premiação?

A graphic novel Maus, do sueco Art Spiegelman, venceu em 1992 o “Prêmio Especial Pulitzer” porque o comitê não conseguiu decidir se a obra seria categorizada como ficção ou biografia. Única história contada em quadrinhos a vencer a premiação, Maus (“rato”, em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. Considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos, o livro é uma obra-prima para quem se interessa por história, literatura e arte.

O primeiro impacto da leitura é a representação dos personagens. Nas tiras, os judeus são desenhados como ratos (daí o nome do livro) e os nazistas ganham feições de gatos; poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Essa divisão literalmente por raças ajuda a compreender a mentalidade antissemita que jogou os homens uns contra os outros, um recurso inteligente e preciso, mas que não deixa de transmitir a crueldade. Some-se isso à ausência de cores e confirma-se o pensamento de Steven Spielberg à época de “A Lista de Schindler”: não há como retratar o Holocausto em cores.

A narrativa vai e volta ao passado, já que é um misto metalinguístico da própria concepção, em que acompanhamos Art convencendo Vladek a contar sua história, uma maneira de aproximar pai e filho cuja convivência é carregada de dificuldades, e efetivamente as lembranças do sobrevivente, englobando o antes, o durante e o depois da guerra. Há também interlúdios informais em que Art se questiona e se inquieta com a tarefa nada fácil que trouxe para si.

O livro orbita em torno da terrível vivência do Spiegelman pai, mas em momento algum o Spiegelman filho se esforça para lapidar a imagem do protagonista como um herói inquestionável ou um coitadinho. Pelo contrário: Valek é retratado como uma pessoa real, que por vezes se mostra corajosa e destemida, pronta para encorajar sua amada a lutar pela vida, e em outras é o próprio retrato do estereótipo do judeu mesquinho e sovina, surpreendendo pelo comportamento claramente preconceituoso e racista. É de se desconfiar, também, alguns tons de exagero nesse retrato, pois se percebe o grau de ressentimento do filho em relação ao pai.

A Segunda Guerra Mundial é um evento histórico que mudou a face do planeta e até hoje repercute, sendo um dos momentos mais populares para ambientação de livros e filmes. Logo, todo o seu contexto e o seu desenrolar já nos são, de certa forma, familiares. O mérito de Maus está na personificação, na singularização: sabemos que seis milhões de judeus foram mortos no genocídio nazista, mas o trabalho de Art Spiegelman dá nome, idade, família e sotaque a essas vidas sacrificadas. Vladek é um poço de memórias, mas a idade avançada e o próprio jeito de ser não permitem linearidade de narrativa, o que presenteia a narrativa com episódios cotidianos que à primeira vista podem parecer irrelevantes, mas contribuem na construção do todo. Os dois relatos pessoais, de pai e de filho, entrelaçados pelos atos de contar e ouvir, nos fazem pensar na degradação humana e na distorção de valores que tomaram conta não só desse período nefasto da história, como também nos assombram até hoje.

Toda quinta uma resenha!

12 thoughts on “Resenha de Quinta: Maus (Art Spiegelman)”

    1. Maus já é um clássico para quem curte quadrinhos, principalmente graphics. Pode indicar, ele não vai se arrepender da leitura!

    1. Quando se trata de quadrinhos, a gente às vezes não se permite prolongar a leitura como acontece com os livros. Queremos ler mais rápido, até mesmo no mesmo dia, porém obras como Maus puxam o freio pela gente e fazem com que a gente aprecie no tempo certo. Dê outra chance, vai valer a pena!

  1. Não conhecia essa graphic novel, mas a proposta dela bem interessante. E assuntos polêmicos sempre chamam a atenção e tem algo que nos faz pensar e refletir no nosso papel no mundo.

  2. Que legal!Eu não conhecia, mas me deixou bem curiosa principalmente pelo fato de terem que criar uma categoria nova só pra ele ganhar o prêmio.

    Eu gosto e me emociono muito com histórias que são contadas no holocausto, a gente sempre aprende e se sensibiliza um pouco mais.
    “Maus” entrou para a minha lista. <3

    Beijo

  3. Essa HQ é maravilhosa! Eu a tenho na minha estante e volte e meia fico observando a arte!
    Apesar de ser Quadrinho, achei a leitura bem tensa e carregada. O conjunto da obra consegue transmitir muita profundidade. Como você bem destacou é uma edição para quem curte fatos históricos e um belo trabalho gráfico!
    Beijos!
    Colorindo Nuvens

  4. Eu sou louca para poder ler esse quadrinho, já tive a oportunidade de tê-los em mão, mas nunca consegui emprestar ou comprar ele.
    Sou apaixonada demais por esse tipo de história, apesar de não saber que ele era tão famoso!

    Ótima resenha.
    Beijos.

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