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Tolkien e eu

Not all those who wander are lost.

No início do ano passado, decidi resolver um assunto há muito inacabado: depois de procrastinar por mais de dez anos, eu finalmente leria Tolkien. Se fosse para me tornar um fantasma, não seria por conta de O Senhor dos Anéis e O Hobbit como assuntos inacabados. 

Minha primeira experiência com o senhor John Ronald Reuel Tolkien não foi das melhores. Para bem da verdade, foi inclusive bem ruim. Ainda na pré-adolescência e fascinada pelo universo fantástico exibido nos filmes do Peter Jackson, eu nutria uma vontade enorme de conhecer a obra que dera origem a toda aquela magia. Eu estava perto dos 13 anos e para mim os R$99 que custaram a edição única de SdA que comprei à época representavam um investimento valiosíssimo. Logo, as expectativas eram tão grandes quanto um ent. O problema foi ter um retorno do tamanho de um hobbit.

Isso não significa que a obra não tenha seu valor; mesmo quem não gosta de literatura fantástica precisa reconhecer a importância dos escritos de Tolkien para o gênero. O homem é um divisor de águas e o responsável por inspirar e cativar não somente uma legião de leitores, mas também de autores. Muito do que lemos hoje em termos de fantasia bebe da mitologia criada, desenvolvida e alimentada fartamente por este senhor. O que não quer dizer que ler Tolkien seja fácil.

Talvez esse tenha sido meu erro aos 13: achar que ler SdA seria tão tranquilo quanto ler Harry Potter, a série de fantasia que me abriu as portas da leitura. Fui encarar A Sociedade do Anel completamente despreparada para o que encontrei: um livro extremamente rico, mas pouco fluido. É praticamente palpável a dedicação de Tolkien na criação do seu mundo e é notável também a profundidade e a complexidade com que deu à luz a Terra-Média. Afinal de contas, ele era um professor universitário, doutor em Letras e Filologia (não é à toa que ele criou IDIOMAS). Contudo, me deu a impressão que o maior interesse do autor era justamente introduzir e explicar esse multifacetado universo, fazendo disso a “missão” do livro, e a história em vários momentos ficava em segundo plano. Se você leu A Sociedade do Anel e não quis pular algumas descrições minuciosas demais sobre folhas e terrenos, para mim você é um campeão.

Foi assim que abandonei meu calhamaço da edição única e me traumatizei com o autor, até que Árvore e Folha caiu em minhas mãos. É um livro fininho, contendo o ensaio Sobre Contos de Fadas, um conto e um Tolkien completamente diferente. Não sei se foi o formato, a trama ou mesmo a minha maturidade de leitura, mas a primeira vez que o escritor me empolgou não foi com a excelência de sua ficção, mas com o brilhantismo de suas reflexões literárias. É um texto que não se encerra em si, mas no leitor, principalmente se for um leitor de fantasia. Foi quando eu soube que precisava dar outra chance ao Senhor dos Anéis.

Coloquei Tolkien nos meus desafios literários para 2016. Li a trilogia ao longo do ano (o primeiro em janeiro, o segundo em junho e o terceiro em dezembro, junto com O Hobbit). Não posso dizer que reler A Sociedade do Anel foi agradável, mas me pareceu um pouco menos sofrido do que dez anos atrás. As Duas Torres para mim representou a verdadeira virada: foi o mais rápido e o mais prazeroso, o que efetivamente deu um clique no meu eu leitora, o que fez com que eu tivesse empatia pelos personagens e suas trajetórias (Merry e Pippin principalmente). Por mais que o O Retorno do Rei seja a conclusão de toda essa saga, ele ainda não tem para mim o mesmo apelo que o segundo, no qual eu percebi mais desenvolvimento do caráter e das particularidades dos personagens, além da própria evolução narrativa com núcleos separados contribuindo para o andamento da trama. Já O Hobbit tem uma vibe muito mais leve, aventuresca, divertida e menos pretensiosa: gostei bem mais.

Depois desse desafio pessoal, não acho justo qualificar o saldo como positivo ou negativo. Ler Tolkien, mesmo se você não gostar, sempre acrescenta, seja às suas referências, aos seus livros favoritos ou à construção da sua identidade como leitor, ainda mais dentro do gênero fantástico. De uma forma ou de outra, Tolkien é transformador e para toda uma geração de leitores e escritores que se seguiu a ele, revolucionário.

Se vivo fosse, J. R. R. Tolkien completaria hoje 125 anos. Alguns o abraçaram desde cedo e o chamam de Mestre, de Professor, e nessa data celebram não somente sua vida, mas principalmente a obra que o fez imortal. Outros, como eu, ainda vagueiam por seus escritos, embora não estejamos perdidos, apenas reconhecendo o terreno. Afinal, como disse certa vez um mago de chapéu cinzento, “tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”. Que cada um ao seu tempo possa se aventurar nesse universo, lá e de volta outra vez.

 

[x] Vez por outra faço um relato de experiência literária com alguns autores. Caso tenha interesse, aqui estão minhas impressões sobre Neil Gaiman e Gillian Flynn.

2 thoughts on “Tolkien e eu”

  1. Eu aprendi a gostar dele. Assim como vc não tive experiências boas, fui obrigada a ler um livro na época por causa de um trabalho do ensino médio e me vi forçada. Odeio ler por pressão, acho que as escolas deveria mudar isso e fazer com que a criança tenha interesse de outra forma hauhauhauh

    Mas enfim.. Hoje eu admiro demais as obras dele e pretendo ler mais dele futuramente <3

    1. Ai, vem cá, me dá um abraço <3 Eu tenho tanto medo de ser sincera sobre o Tolkien como eu fui nesse texto por medo da reação dos fãs, sabe? É bom encontrar gente que viveu a mesma coisa hahaha Eu também quero ler mais dele, mas acho que não mais na Terra-Média, pelo menos por enquanto. Quero ler os livros com uma pegada mais tranquila, mais infantis, tipo o Roverandom.

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