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Eu vi: “Gilmore Girls: Um Ano para Recordar”

25 de novembro de 2016. Vemos o relógio do computador confirmar o nascimento dos primeiros minutos do novo dia enquanto ainda é noite. É oficialmente Black Friday, mas não estamos à espera de promoções. O que nos tomou o precioso sono e nos colocou um despertador para as 6h da manhã não nos toma mais do que R$29,90 mensais. Sabemos que não ouviremos o tema clássico, mas a expectativa dos anos que se passaram em dormência e saudade coloca as palavras em nossas bocas: where you lead, I will follow… anywhere that you tell me to… gilmore-girls-revival
O trailer descreve Gilmore Girls: A Year in the Life como um “evento em quatro partes da Netflix” e não acho que haja palavra melhor para descrever o revival. Nós nem sabíamos que ele vinha, mas bastou ser anunciado que tornou-se tão ansiado quanto o Natal. Afinal, são nove anos sem Lorelai, Rory, Stars Hollow, toneladas de café, referências à cultura pop em alta velocidade e um senso de humor deliciosamente único. E sabendo que os quatro episódios/minifilmes de 90 minutos seriam comandados pela criadora da série, Amy Sherman-Palladino, a expectativa só perigosamente inflava. A sétima e última temporada do seriado original não esteve sob o comando daquela que melhor conhecia as garotas Gilmore e isso refletiu em um encerramento fora da essência e dos planos originais.

O resultado é um revival que apela para o saudosismo e para a nostalgia dos fãs, mas que ao mesmo tempo conta boas histórias, a maioria correspondente ao que se esperava da trajetória dos personagens quase uma década depois da última vez em que os encontramos, em arcos que – bem ou mal – trabalham dramas muito mais vida real do que outros seriados com proposta semelhante. O ponto de partida para os três principais, das três gerações de garotas Gilmore, é a morte de Richard Gilmore, uma inteligente e sensível homenagem ao ator que o interpretava, Edward Herrman, falecido dois anos antes do retorno da série.

O luto funciona como gatilho para o desenvolvimento da narrativa mais interessante do revival: a de Emily (Kelly Bishop). Casada e dedicada integralmente por 50 anos, a matriarca da família se vê sem rumo ou propósito. Em uma das falas mais simbólicas do trailer, ela desabafa: “metade de mim se foi”. A partir daí, Bishop como sempre rouba os holofotes e nos entrega uma atuação impecável nos mais chocantes arroubos de sua personagem, uma mulher impetuosa acostumada a ter tudo à sua maneira, extremamente ligada às aparências, mas completamente desestabilizada pela indesejada das gentes que lhe roubou o Norte sem ao menos ter a cortesia de oferecer um tempo para os preparativos. Assim, temos a mesma Emily em busca de um novo sentido para sua vida, enquanto tenta honrar os últimos desejos do marido e lidar com a própria dor, o que leva a momentos nada menos do que brilhantes.

A perda do pai, com quem tinha um relacionamento muito melhor do que com a mãe, embora nem assim tenha sido o ideal, empurra Lorelai (Lauren Graham) para mais uma situação desafiadora: dar suporte a Emily, cuja dor expele como lava todos os ressentimentos que tem da única filha. Ao mesmo tempo, nossa boa e velha Lorelai passa pela sua própria espécie de crise de meia-idade: aos 48 anos e em um relacionamento estável há nove com Luke (Scott Patterson), ainda não sabe compartilhar a vida com alguém que não seja sua cria e esconde situações importantíssimas do parceiro, que reluta em torná-lo marido; sem o apoio da melhor amiga e sócia, já que Sookie foi embora de Stars Hollow em algum tipo de experiência profissional (uma justificativa para a dificuldade de Melissa McCarthy para participar do revival), se vê sozinha para lidar com a pressão de Michel (Yanic Trusdale) para expandir o empreendimento que foi seu sonho realizado, a Dragonfly Inn, enquanto ela mesma está tomada pelo medo do novo. Confortável como sempre esteve na pele de Lorelai, Lauren está em sua melhor forma na personagem, cujo roteiro deu margem para o cômico, o dramático e o surreal (Wild que o diga); ela nos arranca lágrimas e risadas quase à mesma proporção.

O problema maior do revival é o arco de Rory (Alexis Bledel). A carreira que tanto encheu o avô de orgulho não está nem perto daquilo que ela esperava; sem se fixar em emprego ou residência, Rory passa as quatro estações em que os episódios são divididos pulando de um lugar ao outro, sem de fato chegar a nenhum. Aos 32 anos, idade de sua mãe no início da série, a jornalista tem alguns bons trabalhos publicados, um nome que travou no caminho da ascensão e um senso de que “ela merece mais do que isso”, noção que fere seu orgulho ao precisar engolir e se submeter a um emprego que não deseja, mas do qual precisa para sobreviver. O grande retrocesso na construção da personagem está em seus relacionamentos amorosos. Havia uma ansiedade generalizada acerca das aparições dos três namorados de Rory durante o revival: será que ela terminaria com um deles? Qual o papel de cada um dez anos depois em sua vida?

O envolvimento de Rory com Logan (Matt Czuchry) é um choque em que pensamos a cada segundo “Essa não é a Rory que eu conheço”. Todos fazemos escolhas amorosas erradas ao longo da vida, há sempre aquele crush que não superamos ou um namoro que terminou com a sensação de inacabado. O que acontece em Vegas e que fica em Vegas de Rory e Logan é mais do que isso: é uma deslealdade sem tamanho, não só com uma personagem aleatória que é apenas mencionada, mas principalmente com Rory. A aparição de Jess (Milo Ventimiglia) é curta, mas cumpre um propósito narrativo, o que não se pode dizer do flash de Dean (Jared Padalecki), que é puro fanservice (não que eu esteja reclamando, just saying).

Stars Hollow permanece encantadora, com sua atmosfera peculiar e população mais ainda (we are all strange here). Ao longo das estações, vemos algumas das celebrações e datas marcantes da cidade que apareceram durante a série, além dos personagens coadjuvantes que sempre deram o tempero excêntrico do lar de Rory e Lorelai: Taylor, Miss Patty, Babette, Gipsy e, obviamente, Kirk. Também reencontramos Lane e suas famílias, inclusive com uma aparição de Mr. Kim! E, claro, we will always have Paris (Liza Weil), literalmente um tapa na sua cara a cada momento de tela.

As famosas “últimas quatro palavras” que Amy Sherman-Palladino não teve a oportunidade de inserir à época da sétima temporada podem agradar ou desagradar em intensidades elevadas, mas é impossível ser indiferente a elas. Por mais cliffhanger que sejam, provavelmente representam mesmo o fim desse ciclo das garotas Gilmore. Por mais que quebre um pedaço do nosso coração que acabamos de remendar com esse revival, há aquela estranha sensação de conforto. Eu confio no que o futuro vai reservar para Rory e Lorelai, mesmo que eu não possa saber exatamente o que seja. Porque há uma coisa que podemos ter certeza: elas vão cuidar uma da outra.

Where you lead, I will follow <3

 

3 thoughts on “Eu vi: “Gilmore Girls: Um Ano para Recordar””

  1. Eu tô louca pra assistir A Year To Remember! Fiz maratona de Gilmore Girls esse ano e amei <3 quero muito ver o que vai acontecer nos episódios especiais 😀
    Beijos, Ju!

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