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[Resenha] “Garota Exemplar”, de Gillian Flynn

Perdoem a imagem de destaque ser retirada do filme, mas a adaptação cinematográfica de Garota Exemplar é um exemplo espetacular (para não dizer perfeito) de transposição de uma obra para outra plataforma sem perder essência nem força. Até Ben Affleck, um rostinho bonito e inexpressivo, consegue desenvolver alguma coisa, embora seja Rosamund Pike quem domine tudo – desde a tela até seus pensamentos antes de dormir. Sweet Jane Bennet is long gone after this. Um alerta: esse texto é uma amálgama entre livro, filme e spoilers.

A história muitos de nós já devemos conhecer: na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. A casa está revirada, os pertences estão espalhados pelo chão, há destruição por toda parte; tanta destruição que levanta suspeitas. Tão meticulosamente bagunçado que coça, incomoda. O marido se mostra amargo, evasivo e distante; seus depoimentos sobre a mulher são diametralmente opostos ao que qualquer outra pessoa do convívio dela afirma. Pressionado pela polícia e pela opinião pública – e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy –, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados, tornando-se o principal, quiçá o único, suspeito.

Como parece ter se tornado confortável para a escrita de Flynn, o livro é narrado por seus dois personagens principais que, misturando passado e presente, contam duas histórias completamente diferentes. Nick descreve a esposa desaparecida como fria e rancorosa, uma garota da cidade grande de Nova York, crescida em um ambiente cuja riqueza veio da exploração de sua própria infância pelos pais psicólogos e escritores, que nunca aceitou ser arrastada pelo marido para o Meio Oeste americano por conta da crise financeira e da doença da sogra. O casamento está por um fio e a convivência entre os dois nem de longe lembra o romance do início. Amy a princípio conta sua história através das páginas de seu diário, inicialmente como Amy Elliot e depois como Amy Dunne. Pela passagem temporal, acompanhamos uma revolução no relacionamento, transformado de conto de fadas para um pesadelo de abuso e terror. Sem esperanças, ela escreve como o amor se perdeu nas tentativas de se adaptar à nova realidade e como esse contexto sufocou não só os bons sentimentos, mas até envenenou o caráter de Nick.

Não queria ser chata, Ben Affleck é um gatinho e tal, mas por que não colocar Rosamund Pike em destaque na nova capa do livro?
Não queria ser chata, Ben Affleck é um gatinho e tal, mas por que não colocar Rosamund Pike em destaque na nova capa do livro? Faz muito mais sentido.

Eu lembro que, quando o filme saiu, pipocaram resenhas e comentários irritados por toda a internet de feministas que acreditavam e defendiam que Gillian Flynn e sua Garota Exemplar haviam prestado um desserviço à sociedade. Que era uma obra machista, cheia dos piores estereótipos femininos – histéricas, insatisfeitas, chatas, perseguidoras de homens, capazes de utilizar a própria sexualidade como uma arma – que reverberam na percepção de homens e outras mulheres na vida real. Que não havia, em todo o filme/livro, uma única personagem feminina boa – a mais próxima disso seria Margo, irmã gêmea de Nick, acusada de ser uma mera transposição do masculino para o feminino.

Aí está o grande nó na garganta: foi feita uma crítica de gênero à construção das personagens femininas, mas o argumento se invalida – na minha leitura, vejam bem – porque essas mulheres não são assim só porque são mulheres. Uma das lutas do feminismo é contra a atribuição sólida e inflexível de papeis: você é mulher, então tem que ser assim, assim e assado. Em Garota Exemplar, as mulheres são carregadas de defeitos por serem pessoas, assim como os homens. Não há príncipes em cavalos brancos; há homens covardes, exploradores, perseguidores, obsessivos. Estamos hoje tão preocupadas com representatividade, com boa representatividade, que criticamos quando vemos as facetas cruéis de humanidade também presentes nas mulheres. Os relatos de Amy, inclusive, mostram vários episódios de machismo praticado por mulheres, o preconceito de mulheres para com outras mulheres, a ausência de sororidade e toda a reflexão sobre ser “a garota legal” para os rapazes (aquela que curte futebol, bebe, ri e transa no primeiro encontro).

Amy e Nick editada2

Serei então eu uma péssima pessoa, uma péssima mulher, por ter achado essa mediocridade humana escancarada nesses personagens o grande mérito de Garota Exemplar? Serei eu então tão ingênua ao ponto de ter sido genuinamente surpreendida pelo plot twist da segunda parte do filme/livro? Terei eu sido enganada pelo clichê do “é sempre o marido” e por isso meu choque ao ver o desenrolar do aperto silencioso, vagaroso e fatal de uma cobra? Talvez sim, talvez não, talvez isso não tenha nada a ver.

Amy Elliot Dunne é uma “vilã” exemplar. As aspas estão aí porque não me sinto totalmente satisfeita em classificá-la como vilã pura e simples, até mesmo porque a existência de um vilão implica a existência de um mocinho. E quem é o mocinho nessa história? Nick com certeza não é. Não há uma fibra de herói nele, só um pouco mais de remorso e medo do que vimos em Amy. Ela, por outro lado, é aquela menina mimada insuportável que sempre consegue o que quer, não importa o que precise fazer para isso. Para ela, os fins justificam quaisquer meios e é a genialidade perversa que Amy orquestra para isso que a torna tão dilacerante. O fato é que Amy me tirou o sono por ser uma psicopata de melhor categoria, daquelas de berço mesmo.

Bu.
Bu.

9 thoughts on “[Resenha] “Garota Exemplar”, de Gillian Flynn”

  1. Terminei Garota Exemplar semana passada e assisti o filme logo em seguida (choque duplo!). Fiquei realmente chocado com algumas coisas e BUM! Meu livro favorito. Eu não sei porque quase ninguém gostou do final, eu tava torcendo para aquilo acontecer (hahaha). Só me lembrava de uma cena de Sr. & Sra. Smith! um tentando matar o outro e depois … Só amor e paz. Parabéns pela resenha! Gostei bastante.

    1. Obrigada, David! Na verdade, não acho que o futuro tenha reservado só amor e paz ao Nick e à Amy, mas acho que no fundo eles são duas almas doentias que se merecem hahaha

      1. hahaha “amor e paz”, digo. Acho que seria algo como “Como você está linda Amy, sua piranha burra” “Papai o que é piranha burra?” “É sua mãe (nome do pequeno doidinho aqui) ” “piranhaburrapiranhaburra” “isso mesmo filho, bom garoto!” . Vou me aposentar dessas histórias elas me contaminam kkkk

        1. Ah, ele só a chamaria assim em voz alta uma única vez. Tenho certeza que ela se vingaria de um jeito que ele não teria culhões para repetir a dose hahaha

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