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[Resenha] “Circle” (2015)

Sinto uma satisfação enorme quando uma obra – seja um filme, um livro, uma série, um quadrinho, um quadrão, qualquer coisa – me surpreende. Esse prazer é ainda maior quando 1) eu não dava nada pela obra em questão antes de apreciá-la e/ou 2) a obra consegue se utilizar de algo não convencional dentro do seu gênero para atingir o interlocutor.

Circle (2015), um suspense adicionado recentemente ao catálogo do Netflix brasileiro, preenche a segunda categoria. Uma hora e vinte e seis minutos de pura tensão, do tipo que você só pega o celular para conferir o Facebook se precisa urgentemente falar com o amigo que te indicou o filme (meu caso) ou se o aparelho começar a vibrar desesperadamente e você suspeita que uma emergência está acontecendo. Para os outros casos, tudo pode esperar. Você tem que ver até o fim.

A premissa lembra a franquia Jogos Mortais. Um grupo de 50 estranhos acorda em uma sala, sem lembranças imediatas de como foram parar lá. Organizados em um círculo, incapazes de se mover ou de encostar nas pessoas próximas, descobrem que a cada dois minutos um deles deve morrer, executado por um aparelho no centro da câmara que emite uma espécie de raio.

A princípio, os ataques parecem aleatórios, mas logo o grupo percebe que, através de um mecanismo de controle individual, cada um pode votar e assim escolher o próximo a ser morto. Quando se iniciam as discussões sobre como decidir quem merece morrer e quando se especula o que deverá acontecer quando sobrar apenas uma pessoa, é que começa o plot twist do gênero. Posso ser noob no assunto, mas nunca um filme de suspense me provocou tanto quanto Circle.

São 50 pessoas desconhecidas umas às outras, pelo menos a princípio. Logo algumas se reconhecem – um casal de amantes, marido e mulher, um policial e um criminoso -, mas em tese todos são completos estranhos. De criança de oito anos e um adolescente de 16 a adultos e idosos acima dos 70. Brancos, negros, latinos, asiáticos. Pobres, ricos, héteros, gays. Saudáveis, com um membro faltando, se recuperando de um câncer. Uma moça com um barrigão de grávida. Como decidir quem desses merece sobreviver?

Em diálogos rápidos – cada rodada de mortes leva dois minutos e o espectador acompanha tudo isso quase com um cronômetro -, os personagens argumentam, criam grupos, se organizam para eliminar quem acham melhor. E são nessas discussões que, nós que vemos de fora, agonizamos com o melhor e o pior da humanidade refletidos em uma questão de sobrevivência. Eu me horrorizei, mais do que em qualquer filme de carnificina, ao assistir ao preconceito – de cor, idade, status social, nacionalidade, orientação sexual, escolha profissional – orientar a vida ou a morte. Essa situação, logicamente, é polarizada dentro do filme, mas facilmente aplicada ao mundo extremamente intolerante e temeroso que vivemos hoje. Quantas vezes não escutamos ou lemos pessoas no auge do conservadorismo afirmando que preferem um filho morto a um filho gay? Ou países que fecham as portas e deixam seres humanos apatriados a deriva para morrer no mar? Quantas mortes subjetivas as vítimas de racismo sofrem todos os dias com um olhar, um torcer de nariz, um comentário maldoso à guisa de piada?

Há momentos de catarse, de esperança. Vê-se também a bondade do homem quando um personagem oferece palavras de conforto a uma voluntária ao suicídio ou quando um garoto prefere morrer a contribuir para a morte de outra pessoa. Mas se vê também como até as ações mais bem intencionadas ou altruístas podem ser mal interpretadas em um ambiente extremamente hostil, em que a cortina de tensão poderia ser cortada com uma faca.

Circle é um jogo macabro de estratégia, de alianças temporárias, de rivalidade entre grupos, mas sobretudo de sobrevivência e valores em cheque. Até onde somos capazes de ir quando provocados ou quando temos algo que consideramos de vital importância em risco? Até que ponto somos perdoados, por nós mesmos ou pelos outros, pelas escolhas que fazemos nessas circunstâncias?

Circle me fez perder o sono porque o vilão encapuzado com um facão e uma máscara sou eu.

16 thoughts on “[Resenha] “Circle” (2015)”

      1. Vi hoje e gostei muito. Achei a ideia bem parecida com Jogos Mortais, mas os assuntos abordados são ótimos! A pessoa merecer morrer pq pq é gay ou simplesmente pq é mais velha que p restante… Ótima dica. Tbm vou indicar no blog. 😉

  1. Valeu pela sugestão e pela postagem convincente (a do Facebook mesmo, só vim ler a resenha depois e parabéns pela resenha :D).

    Sérgio Jr

  2. Um ótimo filme porém a critica social é somente base para algo maior, pq em todas as câmaras existiam crianças e mulheres gravidas?, será q os “ets” estavam contando com homens daquele tipo pois imaginem por um instante que simplesmente para acabar com a super população ou coisa assim que foi levado esse jogo. Alguém pensou em homens estratégicos como também pensou e acreditou na bondade de outros. filme muito muito bom.

    1. Nossa, eu nem cheguei a cogitar isso de super população! hahaha Acho que é um pouco demais, mas quem sabe? Pra mim ficou mais claro de que era uma experiência de laboratório mesmo, com vários grupos focais, com testes realizados simultaneamente para perceber qual comportamento seria mais recorrente. Por isso que você vê no fim uma predominância das grávidas e das crianças, e um ou outro “tipo” diferente, o que deve ter sido uma estratégia do mesmo nível da que acompanhamos. Mas continua sendo um filme extraordinário, imagino que de baixo custo, até.

      1. Certeza de baixo custo.. rsrs… achei meio estranho pois além do homem que sobreviveu existiam outros e em varios momentos uma parte do grupo cogitou matar a menina e a gravida, houveram alguns filmes e ideias que cogitam que ets protegem nosso planeta e quando estamos preste a acabar com ele, eles se pronunciam e nem sempre é de forma agradável.

        1. Pois é, mas é visível o quanto essa estratégia de matar a grávida ou a criança é menos aceita. É só ver os poucos que não se encaixam nesse perfil e que sobreviveram. Fica esse questionamento: será que eram experiências isoladas ou eles fizeram isso com todo mundo?

  3. Filme realmente prende bastante a atenção e nos faz pensar na vida cotidiana cercada de hipocrisia,ideias diferentes e contraditórias..
    Achei que faltou um pouco de criatividade no filme,poderiam gerar mais interação e oferecer outros mecanismos durante o “jogo” pois assim,prenderia ainda mais a atenção,em alguns momentos as falas são inuteis….
    Vale a pena ver pela ideia inicial do filme e para saber o final dele.

    1. Nossa, pois eu acho justamente o contrário! hahaha É esse jogo de palavras nos diálogos que constrói os personagens, porque na situação em que eles se encontram não há muito como agir. É uma grande batalha de argumentação veloz cujo prêmio máximo é a vida. O suspense pra mim estava nisso, em pensar em quem seria o próximo, quais estratégias seriam usadas pra convencer os outros…

  4. Eu amei o filme, mas sinceramente não entendi o final. Estavam todos olhando o espetáculo mortal ou começaria tudo de novo? Eram realmente alienígenas?
    Se alguém puder me explicar. …

    1. Oi, Amanda! Eu acho que o final é como se os ratos de laboratório encarassem os humanos. Não acho que fosse ter um momento apocalíptico ali, só uma revelação de que era mesmo um experimento conduzido.

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