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Para além dos robôs e das naves espaciais (ou por que ler ficção científica)

Vamos fazer um brainstorm rápido. Não pare e não pense, só elenque as primeiras coisas que vierem à cabeça quando se fala em ficção científica.

Eu suponho que “nerds”, “ETs”, “robôs”, “guerra espacial”, “fim do mundo”, “viagem no tempo” e “Ew!” tenham sido alguns dos termos mentalmente ululantes, não necessariamente nessa ordem.

A ficção científica é um gênero literário riquíssimo, tanto em clássicos como em produções atuais, povoado por subgêneros para diferentes paladares: robótica, cyberpunk, dieselpunk, steampunk, space opera, distopia, pós-apocalíptico… Contudo, tem sido renegada muitas vezes como um gênero “menor”, “imaturo”, “leitura de entretenimento” ou até mesmo “raso”.

Estereótipos são um mal da sociedade por carregarem pré-conceitos costumeiramente superficiais, estimularem a preguiça e desencorajarem a curiosidade, a busca pelo novo. A sua primeira impressão, que inclusive pode nem ser sua mesmo, é uma porta entreaberta: cabe a você decidir se a fecha por completo, tranca e joga a chave fora sem saber o que está do outro lado, ou se a fresta de luz instiga a conhecer, literalmente, um outro universo.

Caso opte por dar uma chance a um gênero que vem sendo redescoberto nessa gloriosa época em que ser nerd é legal, o trabalho da editora Aleph merece ser valorizado. Com mais de 130 obras do segmento em catálogo, o selo vem notadamente se esforçando para trazer mais leitores para o lado sci-fi da Força. Por isso, promovem em 2015 uma série de Encontros Intergalácticos pelo Brasil, dos quais Fortaleza recebe dois, um na Livraria Cultura (14/08) e outro na Livraria Leitura do Shopping RioMar (16/08).

Os dois eventos contam com a presença dos editores Adriano Fromer e Daniel Lameira. Além de apresentar os lançamentos da companhia para este ano, com grande destaque para o universo expandido de Star Wars, os dois tratam de um assunto bastante pertinente à editora que representam: por que ler ficção científica?

Encontro Intergaláctico 3

Não é à toa que ambos foram escolhidos como representantes do selo para exporem-se ao público falando sobre sci-fi. Fromer e Lameira sabem sim do que estão falando, publicando, produzindo, incentivando e, acima de tudo, vendendo! Apresentando a cronologia do gênero e o surgimento das diferentes correntes capitaneadas por nomes de peso como Júlio Verne, H.G. Wells, Isaac Asimov, William Gibson, George Orwell e tantos outros, os editores defenderam a pluralidade de assuntos e abrangências dentro da ficção científica.

Mais do que isso, ressaltaram que, por trás dos estereótipos das naves e guerras espaciais, dos robôs e do mundo apocalíptico, da física-química-biologia das moléculas programadas para dominar o universo e tudo mais, o principal objeto de discussão do gênero é tão pura e simplesmente a humanidade. É afastando-se dessa realidade tão cotidiana que não nos surpreende e nem nos faz refletir que podemos, finalmente, nos ver como espectadores de nós mesmos. Os robôs, os alienígenas, os monstros, todos refletem em suas carcaças reptilianas, mecânicas ou transcendentais a epiderme arrepiada, arranhada e frágil do ser humano, parca representação de nossos medos, anseios, realizações, angústias, desejos e motivações.

Como conclusão repleta de conhecimento de causa, vejam o discurso inflamado, apaixonado, crítico e verdadeiro da dama da ficção científica Ursula K. Le Guin, quando foi homenageada pela sua contribuição à literatura americana no National Book Award de 2014.

“Acredito que tempos difíceis estão por vir, quando desejaremos ouvir a voz de escritores que consigam ver alternativas ao que vivemos hoje e possam enxergar além desta nossa sociedade, tomada pelo medo e por sua tecnologia obsessiva, outras maneiras de existir, e que possam até imaginar possibilidades reais de esperança. Precisaremos de escritores que possam se lembrar da liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade mais ampla.

[x] Ainda estou no aguardo pelo meu certificado de duas horas/aula em Ficção Científica, tamanho o conhecimento de causa apresentado pelos editores durante o encontro.

[x] Saí pobre, mas com edições belíssimas de Eu, Robô (Isaac Asimov) e 2001 (Arthur C. Clarke). Pela internet, ainda encomendei A Mão Esquerda da Escuridão (Ursula K. Le Guin) e O Homem do Castelo Alto (Philip K. Dick).

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